20 de outubro de 2011

About a girl.

Just a girl, an ordinary one.
She dropped into my life, and made me laugh, a lot.
I remember I already knew her from a lot of places, and always read what she wrotte, and always laughed about it all; intelligent, funny, sweet, soft. And I keep on laughing with this girl. It´s something simple: she makes me happy.



Just a girl. And it sort of...makes me relieved.
"I'm not like them, but I can pretend.
The sun is gone, but I have a light.
The day is done, but I´m having fun.
I think I'm dumb, maybe just happy.
Think I'm just happy."
 
(Dumb - Nirvana. Disposição adaptada).
 
"Padre, não tenho intenção de fazer um pacto de paz com o meu corpo e a minha mente, e também não pretendo voltar atrás. Sendo assim, permita que dome meu corpo ao não alterar a minha dieta; não pretendo parar pelo resto da vida, até que não haja mais vida. O senhor não deve pensar que o meu corpo está tão torturado e fraco como parece; ele age assim para que eu não cobre a dívida que ele contraiu do mundo, quando gostava do prazer...Ah, meu corpo, por que não me ajuda a servir ao meu criador e redentor? Por que não é tão rápido para obedecer como era para desobedecer Seus desígnios? Nao lamente, não chore; não finja estar meio morto. Você irá suportar o peso que ponho sobre seus ombros, todo ele...Não apenas desejo me abster de alimento para o corpo como desejo morrer mil vezes por dia, se fosse possível, nesta minha vida mortal.
 
- Santa Margarida de Cortona, numa carta ao seu confessor que mandara que ela se alimentasse. Morta em fevereiro de 1297, de inanição."
 
(taken from "Wasted", by Marya Hornbacher.)
 
 

"I refuse to remember the dead.
And the dead are bored with the whole thing.
But you - you go ahead,
go on, go on back down
into the graveyard,
lie down where you think their faces are;
talk back to your old bad dreams"

(from the poem "A curse against Elegies, by Anne Sexton).

{[And don´t even try, bittersweet, it would be too much effort, I might say: you wont like me. I´m terribly disappointing.]}
 
 










 
 

Something sudden.

I decided to post here, from now on, anything I want to. Sometimes I just get too tired of pretending everything is ok, very good, thank you. I´m the one who laughs, who makes jokes with friends in the course, who is always so fun and cheerfull. And also, who always offers help and gives it, no matter what´s the weight I´ll have to carry after. However, nobody reads this fucking thing, anyway, and I just can´t deal with all the stuff inside myself alone. Better writting to a computer screen then not wrtting at all.

É extremamente estranho escrever em português, mas juro que vou tentar, pra mim mesma, como um exercício de auto-superação. Qualquer coisa que diz respeito a esses assuntos, eu falo/escrevo menciono em inglês, mas vou tentar deixar isso de lado, for a while. Ou alternar os dois, who knows.

Hoje o treino na academia foi simplesmente maravilhoso. Corri o dobro do que corria antes, e em uma velocidade muito maior. Antes, ainda fiz outro circuito de alguma coisa aeróbica lá. Passei longe de me sentir mal, de quase desmaiar, ter hipoglicemia, ou qualquer uma dessas coisas que tive e me assustaram Também não senti que ia desmaiar. Apenas a velha pressão na cabeça e os arrepios, nada de mais. Acho que essa foi a prova cabal, pra mim, de que não tenho nada. Se passei mal algumas, vezes, sei lá que por que, isso não tem mais sentido nenhum. Não tenho anemia, não tenho patologia alguma. Tudo completamente dentro dos conformes. Acho que talvez a combinação de ef + caf antes dos treinos me deixava mais fraca, paradoxalmente. Ou não. Eu não sei, procurei ajuda e ainda procuro, mas, a cada dia que passa, fico um passo a mais atrás de realmente acreditar que algu ma ajuda possa servir. 

Comprei as anfs e vou começar a tomá-las na segunda-feira. Pra mim não vai ser difícil, acredito, porque já mantenho um regime de exercícios bem legal, bem rígido e prazeroso, e a medicação vai me ajudar com a comilança à noite, mesmo que essa comida seja muito pouco calórica e que eu ainda assim esteja perdendo peso. O peso é o de menos, às vezes eu penso. Só quero diminuir, sumir, cair fora daqui. 
Algo de muito estranho aconteceu hoje, e pensei todas essas coisas. Eu sei lá o quê. Enquanto corria, chegou um tempo em que eu nem me sentia mais ali, meu corpo simplesmente mantia o ritmo, e mais nada. Desejei algo como: "ah, se eu tivesse que desmaiar agora, morrer agora, eu morreria feliz, morreria correndo, porque essa ameaça é tão repetidamente dita a mim, que vem um ponto em que eu penso: então que venha". Aumentei a velocidade em mais 2 km por hora nesse instante. É uma delícia. Admito, talvez, que meu corpo pede paciência, mas não dou, e não vou dar.
Que direito ele tem de exigir algo de mim, rs? Nenhum. o.O

Às vezes tenho medo de mim mesma, do que isso aqui pode virar pra mim. Mas eu acho que tinha, hoje alguma coisa mudou. O ar estava mais pesado, com algum grau de toxicidade, fiquei completamente inebriada. E continuo a mesma Li, para todos. Jus let the degradation begin. For real, now. I declare war against my body. I don´t give a shit if someone reads it one day a nd thinks it´s a pro-ana blog, or something like that: maybe I´m not pro-ana, but I really think one disease makes an absurd sense in my mind. Or maybe I am pro-ana, anyway, but only for me, for myself, entirely. I love people the way they are, I found them pretty, fat, thin, sick, healthy, any skin color or hair cut, lol....

I quit from today the food diary. It was completely useless, it just made me see, day by day, the huge amount of food I eat. And it was not even for me: nutritionists looked at that, talked to themselves, looking to each other as if I was not even there, and then, there were always s o mething like: "oh, sweetheart, you don´t eat a correct amount of proteins, would you change this food to that. You don't eat the right amout of fat, what about putting these or that....maybe some 400 calories more, listen: you´re gonna spend more energy exercising if you eat this way".

I smiled. A very, big, and honest smile. Inside it, there is, always: "you know I can´t do what you are saying, sorry, thanks for trying to help". 

And they DO get it! The reply: "Hum...no, you wouldn´t....am I correct....yes, I guess I am". And they stare at each other again.

Now, practical things! \o/ I can keep it all organized here! No more breaking head trying to writte nice texts, I got some return, a couple of people I admire a lot wrotte to me about the value of some texts, it made me glad, but I just can´t help writting about it all. For those rare people who really read something here, my sincere apologize. Maybe I come back someday.

Well, I (re) started th is idiot obsession weighting 160,94 lb. At this moment, I weigh exactly 99,21  lb. A lot of goals were achieved. The "last" one is something less then 88,18 lb. 81,57 lb would be just great. Nevertheless, I must say I´m quite patient. I just wanna keep a constant weight loss, never gain simply anything. If it goes constantly, regularly, it´s fine. I know I can´t run, I´m not able to run 16 miles a day as I used to do back there in the beggining, unfortunately. But, at the moment, 7.2 miles running in a good speed is enough. As time goes by, I increase it, and put other exercises on the daily program.

Actually, what kills me for real are my thoughts. Tha things with numbers, the fat and the thin nunbers, the obsessions with stairs and jumping, the panic of passing out again, losing conscience, goi n g crazy for real. The good thing is something I´ve noticed recently: having this food behaviours keep me so far from self-destructive thoughts such as mixing meds and alcohol, going alone and walking around the streets the entire night, promiscuous sex only to punish myself, cutting and other self-mutilations, overdosing on meds and dealing closely to wrong people in streets. Things that started when I was 17 and were just to strong till my age of 21. I´m 22, now, and I could get back the control of my life a few months before I turned 22. I had this control once back in time, from 11 to 14, but I lost it for years. It was "remitted" as doctors said. I don´t give a damn to what they say, for real, when I decided to heal myself, I was alone and young, and so I did. I just need to reach my goals to heal myself again, but, this time, with no strong and unecessary meds, so, I don´t gain all the amount of weight all over again.

Nada disso é um desabafo, uma historinha chata pra fazer qualquer pessoa simpatizar-se com uma causa tão idiota, que nem chega a ser causa. Sou apenas eu, mais nada, nem ninguém. Não tenho i ntenção nenhuma de fazer desabafos, só me reorganizar nos meus desejos, que se tornam cada vez mais fortes. Em contramão, os desejos de vida que eram tão deliciosos e presentes antes, não pude evitar que minguassem pouco a pouco. Mas irão voltar. Sou persistente até dizer chega. Quero ficar bem? Sim! E estou bem.


"Porcelain
Are you wasting away in your skin
Are you missing the love of your kin
Drifting and floating and fading away
 
Porcelain
Do you carry the moon in your womb
Someone said that you're fading too soon
Drifting and floating and fading away"
 
(Porcelain, Red Hot).
 
God, thank you, maybe now I can breathe! Who knows? 

                            ***
 





 

19 de outubro de 2011

Chá adoçado com pílulas.

                                                        ***

Todos os dias lá foram de um calor tão intenso, que chegava a ser reconfortante. Envolvia meu corpo inteiro quase como água, e nos fazia sempre ficar do lado de fora, conversando, rindo, por vezes chorando por alguma coisa, mas um reconfortava o outro. Éramos uma família. Em seis, por um tempo sete, depois oito, mas permanentemente seis pessoas, cada uma com sua história, suas questões, seus motivos, seu quarto, e um pátio no meio.

O posto de enfermaria, ou o panótico (como fui saber depois pelo P.C. como Foucault chamava esse lugar), ficava posicionado no fim do pátio, à esquerda. Na extremidade direita, o refeitório, as mesas, a cozinha. Em ambas as laterais, os quartos, na de cima, além dos quartos usados para descanso do pessoal do HD, a sala da psicóloga, da TO, e, bem escondido dos olhos desatentos, atrás do panótico ficava uma porta azul com uma placa em cima: "consultório". Era ali que, invariavelmente, iríamos todos os dias. Consegui fugir em apenas um, pulei na piscina e estava hum...molhada demais pra entrar. Nos outros, me ordenaram ir à consulta mesmo de maiô, cabelos e shorts encharcados.

Toda quarta-feira era dia da reunião da equipe, quando muitas coisas poderiam ser definidas: alta, permanência, fechamento de diagnóstico, medicação, ausência dela, nossa vida lá dentro. 

Sentada em uma das muretas que transpiravam com o sol das duas horas da tarde, recolhi minhas pernas na direção do meu peito, e fiquei com o joelho no queixo, observando de longe a salinha, por vezes brincando de sugar e morder meu joelho direito, tentando de qualquer forma arrancar uma casquinha da cicatriz que entregava minhas estripulias.

"She´s quite self destructive, I might say".
"And she´s refusing to eat normally for days, complains a lot about the nurse who threatens her with tubefeeding. She´s a rules breaker, sir."
"And what about the close friendship with the doctor who is inpatient, here, as well?!  I´m sorry if I´m overrating it, gentleman, but this girl is dangerous, may I say."
"She came from Wonderland, she acts differently, it´s a fact, maybe we should give her a chance..."
"Guilty."
"Guilty."
"Guilty."
"CUT OFF THE HEAD"


                                                        ***


"Li, vem jogar baralho, a gente já vai começar, vem!", gritou a Tats, pouco depois de um bom tempo em que me entreguei a devaneios, com os olhos vidrados na porta azul, os joelhos já vermelhos de tanto apertá-los.

Nesse momento ele sai do quarto dele, andando de uma forma arrastada, única, grande e tranquilo como um monge budista, os olhos semicerrados com toda aquela luz, estava provavelmente lendo, eu pensei. Olha em volta, analisando o ambiente, como sempre faz. Agora vai aquietar os olhos na mureta, dizer naquele tom engraçado "o que é que a senhorita faz aí sentada nesse sol?.. em que está pensando". E o fez. Sentou-se ali, mais uns minutos de conversa, encaminhei-me para o refeitório pra jogar cartas. "Vou continuar lendo, vejo vocês mais tarde", ele disse. 


Enquanto caminhava, pensava se seria a Rainha de Copas com seu exército de cartas (marcadas), ou o inofensivo Chapeleiro Maluco, que se mostrava ao meu lado, quem venceria aquela batalha. Se eu poderia voltar para o lugar de onde vim. 

Logo depois da rodada de partidas do jogo, que o M. ganhou com maestria, era a hora do chá da tarde.


"Come to the tea party with me, would you?
                                                 
                                                    ***




 

18 de outubro de 2011

O estranho gosto de ferro na boca. A delícia de saber que esse ferro vem de outra pessoa. E que passa a constituir quem o consome.

Há momentos em que apenas o sangue é pouco. Pede-se por mais.
Uma vez que a alma e a personalidade já foram devidamente apropriadas, toma-se o sangue.
Com um gosto descomunal, digno de serial killers profissionais, Hannibal Lecter que se cuide, para não ser desbancado.

Não esse sangue que leva os nutrientes e faz a troca de gases com as células. 
Exatamente aquele sangue que corre e pulsa nas veias, o que me faz saber que, minimamente, posso viver fisicamente.
Esse é sugado até a última gota, sem nenhuma demonstração de piedade.
"Saia daqui!" -nas entrelinhas de palavras supostamente carinhosas- "mas não se esqueça de deixar também seu sangue comigo".
E eu deixo, com toda a ingenuidade que o Diabo me fez o favor de dar em abundância, mesmo que necessitasse tanto desse fluido vital. Eu o dôo, de mãos abertas e cândidas, se isso te faz feliz, meu amor. 

"Você não pode doar sangue". Ouço quando vou ao Banco de Sangue municipal oferecer ajuda a um colega acidentado. "Seu peso não chega próximo ao mínimo necessário, me desculpe. Próximo!"
Esqueci-me também que anulei meu corpo em nome da existência plena e feliz de outro ser. Que também deixei parte dele, e continuarei deixando, enquanto minha mente ilógica entender nisso uma possibilidade de salvação de outrém. O alimento do seu corpo foi minha essência, minha alma, e, depois disso, quase nada me restou.
  
A não ser, claro, certezas ilógicas à que me agarro com unhas e dentes. Os mesmos dentes que mordem a garrafinha de água, também vermelha como essa letra e meu sangue esquálido e ruim, enquanto espero as horas passarem.

***["Narciso acha feio tudo aquilo que não é espelho"].***
A imagem refletida, não obstante, pode não ser a dele mesmo. 
Ou não corresponder à realidade: é da natureza do reflexo não compactuar com amenidades realísticas.

A Física do corpo (que não quer existir).

Volto novamente a esse espaço que sempre foi meu, mas que negligenciei em nome de receios, medos, imagiários e, infelizmente, reais. Mas é meu, e que seja assim pelo tempo em que existir.

Como é estranho sentir meu próprio corpo, aquele mesmo que pela primeira vez senti como meu em um tempo ancestral, ao tocar minha pele e, em um suspiro de espanto não percebido, atestei minha existência. Como é estranho sentí-lo fincado no chão através dos meus pés, atado às paredes pelas minhas mãos trementes, conectado ao ambiente por uma mente confusa.
Não há felicidade que não gere um estado desesperador de medo antes. E talvez, durante. Sentir meu corpo diminuir seu peso, seu tamanho, e ao mesmo tempo me perder na ausência dos sentimentos que eu sabia que me faziam viva. O meu peso, que pude rever nas aulas ser o resultado da multiplicação da minha massa pela gravidade: é uma força que a Terra exerce sobre mim, em módulo, e à qual meu invólucro responde prontamente: produz uma força contrária, de igual intensidade, mas de sentido oposto. E seu nome, quase ri da minha cara: "Normal".

O perfeito sincronismo com o universo. Mesmo que eu não sinta, há uma paz entre a Terra e meu corpo. Qual parte dele? Exatamente seu peso. Que não passa de uma grandeza, afinal, nada digno de severas preocupações. 

Isso se não existissem outras grandezas, no entanto, não mensuradas ou avaliadas pela ciência da Física, que me fazem, exatamente, querer desafiar essa lei geral e universal: a Minha Lei.

Levitar, quem sabe? Sentir um quase não peso? Reduzir minha parte concreta no mundo a pedaços desconexos, e, assim feito, não mais ter de me preocupar com eles. Queria poder deixar cada uma das partes estilhaçadas em um canto do mundo, um longe do outro, e ficar apenas com minha cabeça. 


Que coisa ridícula, veja só: é justamente minha cabeça santíssima que cria essa própria Lei. É ela quem vai fazer, assim como em um campo magnético, com que as partes perdidas assumam cargas de valores contrários e voltem e se unir. Mesmo que eu não sinta unidade no meu corpo, ele há de ficar íntegro. O campo magnético que vá para as cucuias, se uma quantidade de energia muito grande for ali detonada, eu poderia talvez...explodir?

Mas existe sempre a tendência ao equilíbrio. Na natureza, nada se perde, nada se cria, apenas eu que não me transformo.
Querido Diário Alimentar,

Hoje comi:

-dois tomates, duas maçãs, uma banana, um prato de sopa de legumes, duas barras de cereal light, toda minha vontade de comer os pães de queijo que um colega meu me ofereceu.

Total: dezenas de milhares de calorias imaginárias.

Não purguei, concretamente. Visitei o Purgatório em sonhos agitados, mas optei por não concretizá-lo.


Creio na santa cura, na remissão dos sintomas, na ressurreição da carne em seu estado saudável, na comunhão dos desejos alimentares, na vida após a doença.

Que assim seja.


P.S.: (e que meu corpo seja Seu templo, desde que seja pequeno, por favor).

 

4 de outubro de 2011

Inatingível...

Esse é o trecho de um e-mail que escrevi para F., ano passado, sobre como o via, como parecia inatingível para mim seu temperamento descomprometido, com tudo, com todos, com a realidade. E, ao mesmo tempo, era absurdamente atraente esse comportamento. Como há pessoas inatingíveis! (Ou será só a nossa idealização dessas pessoas que as torna assim?). Ele imprimiu esse e-mail e disse que foi a coisa que mais gostou que escreveram sobre ele. Até hoje, não entendi muito bem, mas aceitei. Fico no comodismo da aceitação qdo a compreensão se torna difícil. Ei-lo:

"A verdade é que fico sempre pensando se posso ou devo te procurar, se vc vai responder, se vai querer me encontrar, se é uma boa ou péssima hora. Fico deitada de bruços ouvindo música com um livro na minha frente, às vezes, só pensando como seria a melhor forma de agir pra não parecer idiota, não parecer uma desesperada que quer mto ficar perto de vc naquele momento. 
Mas tudo que me vem à cabeça e a imagem de vc como um pássaro solto e meio bobo, que voa de lá pra cá de forma irregular e desnorteia a visão de todo mundo, e que, como pássaro, simplesmente voa e é mto difícil de pegar, simplesmente voa e não vai jamais pensar em dizer pra quê, pra onde e como voa, porque isso é simplesmente natural e insitintivo para um pássaro. Aí eu me sinto como aquela menina frustrada que ficou o dia inteiro querendo pegar o pássaro na mão, mas que não conseguiu, especialmente porque não se deu nem ao trabalho de fazer uma arapuca pra tentar capturá-lo, até mesmo porque não tem a menor ideia de como montar essa arapuca. 
Qual seria a arapuca adequada pra não machucar o pássaro, não assustar ou afugentar o pobrezinho, ainda mais qdo a própria menina não conseguiria imaginar-se na posição de estar presa em uma arapuca, por mais cuidadoso que fosse quem tivesse construído a armadilha. Aí já tá tarde e eu resolvo voltar ao meu livro e terminá-lo de uma vez, solto um suspiro profundo de frustração e acho que não há nada mais a fazer. Parece que tudo escorre pelas minhas mãos e eu sou burra demais pra conseguir fazer alguma coisa".

17 de setembro de 2011

Carta aberta a todos os meus afetos.

Escrevi esse texto na forma exata em que ele vinha à minha cabeça. praticamente impulsivo. Publiquei abertamente no facebook, em forma de nota. Coloco aqui no blog também, achei que convinha.


- Várias vezes eu disse, pra várias pessoas especiais: "Se as coisas nos reduzem simplesmente a nada, do nada simplesmente temos que partir". Essa frase não é minha, claro, mas sempre a disse, pra mim, pras pessoas queridas.
Agora digo outra que é meio minha, sabe...:
"Bóra viveeeer!!!" que tb uma vez disse a uma pessoa querida que, infelizmente, não quis mais viver de verdade, e nem comigo.
Seguinte: "Bóra viver??!!!" Quem quiser viver, vem comigo, quem quiser sentir as coisas gostosas que existem por aí. O resto, é resto.
"Eu só quero saber do que pode dar certo. Não tenho tempo a perder".

Eu quero coisas positivas, não lamentos pessimistas. Ajudo sim, como sempre, mas se for para ir para frente, se for pra viver bem, se for pra sentir, se permitir, pra desabafar. Se lamentem de forma negativa mandando uma carta para o papa, ele é pop, rs... Eu quero pensamentos inteligentes, tranquilos, pensamentos leves como o céu. Pessoas que sintam o mundo com prazer, e queiram também sentir-se com prazer, deleite...por mais difícil que pareça.
Sempre vai haver sofrimento, ou angústia, porque ela move a existência humana. Mas pode, por que não, haver também procura por saídas? Um abraço, um sorriso, uma música, uma voz tão doce do outro lado do telefone, uma mão que, inesperadamente, se junta à minha. E sorrisos simultâneos.

Estou em tratamento. Não tenho vergonha de dizer isso, nem muito menos de ser quem eu sou, com tudo de torto e mal arrumado.  Quero melhorar, quero viver, mesmo que tenha que andar em solo escorregadio, e tomar muito cuidado. Mesmo que às vezes eu vá escorregar, levar um tombo, todo mundo vai rir, e eu também.

Nunca me amarrei em uma tristeza que nem jegue é amarrado na árvore. E nunca vou fazê-lo. Sou da raça dos que se movem, prum lado qualquer. E leva também pessoas junto, que gostem da proposta, quem não goste, que fique preso à árvore. Se quiser uma mão pra desatar o nó, eu dou. Mas não sei tudo, e graças aos deuses eu nunca vou saber. Adoro ser imperfeita. Nunca procurei a perfeição em nada. Adoro as pequenas idiossincrasias pras quais muita gente torce o nariz.
Não quero negativismo. Me rodeei de tantas coisas, esqueci de mim por tanto tempo. Sei que ainda vou esquecer várias vezes. Mas, bóra viver! Quem quiser, vem comigo. Mas é viver, e tuuuuudo o que isso implica, sabe? Pombas!

Li.

10 de setembro de 2011

Alimento da Alma.

"Alimento do corpo, alimento da alma. Alimento do corpo, alimento da alma".

Era essa frase que duas atrizes performáticas semi-nuas, juntamente com uma vídeo instalação, repetiam como um mantra na "Casa das Rosas", em São Paulo, qdo fui visitar, há vários anos. Empanturravam-se com macarrão à bolonhesa, deixavam o molho sujá-las inteiras, a pele, os cabelos, dentro das unhas, os pés. Um pouco comiam, entre uma frase e outra. Macarrão pelo chão, por todos os lados, em seus estômagos, dentro de suas cabeças. O vídeo as acompanhava tranquilamente, tammbém com cenas de comilança, alimentação, corpo e alma.

Tinha cerca de 11, ou 12 anos, olhava aquilo de forma estranha, o queixo ligeiramente caído, espantada talvez com o fato de estarem desperdiçando comida e, além de ninguém dizer nada, repreendê-las, também assitiam como a gente, observavam, com rostos pensativos.
É claro que não poderia fazer isso em casa, pensei.

Muitos anos depois, agora, no entanto, me lembrei disso e o que eu penso é outra coisa: qual seria o alimento da alma, então? E o do corpo, unicamente a comida? 

E a Arte, a diversão, a saída, para qualquer parte? (inspirando-me na música dos titãs).

E então, M.?

Everything is so.....fragile.

      Resolvi postar aqui depois de tanto tempo. Um lugar por mim abandonado em ato há bastante tempo, mas não em pensamento. É engraçado, estranho, atípico, vir postar aqui justamente quando estou tão confusa e não sei exatamente o que escrever. Meu cérebro foi, por tanto tempo e tantas vezes envolvido em pensamentos tão complexos, reveladores, libertadores, mas não vim compartilhar com ninguém, especialmente comigo mesma, que sou minha maior leitora. (Re)leitora mental de tudo o que escrevo, na verdade, porque me falta coragem ou mesmo vontade de revisar meus textos. Um medo, sensação estranha de achá-los inadequados, me mantém quase que sempre distante de vê-los novamente. Tanto os escritos quanto digitados. E cá estou, presa a pensamentos cíclicos e confusos, percepções estranhas com relação a mim mesma e às pessoas, tremendo como há tempos venho tremendo, por dentro e por fora, sem nenhuma resolução complicada ou inteligente, apenas a necessidade de voltar a escrever.

Retornei à casa do meu pai, à minha casa, há poucos minutos. Por alguns dias entreguei meu corpo aos cuidados constantes e atentos de médicos, que entravam, saíam, me passavam informações atravessadas,  um grande ponto de i nterrogação na minha cabeça. Muitos deles eu já conhecia de vista ou mesmo de conversas, atendimentos, avaliações. Alguns me reconheceram, outros fizeram questão que isso não acontecesse. Pretendemos evitar uma internação prolongada para o seu caso. "Fazemos aqui o possível para te reestabelecer, te devolvemos à sua casa, entregamos parte do tratamento a você, que deve se cuidar. Aqui,onde moramos, não há lugar para tratamento especializado de casos como o seu. Ou você morre, ou melhora". Ou vai para outra cidade e desiste de seus sonhos, me veio então o restante do raciocínio, mentalmente. "Você ainda não morreu,  mas piora, e a tendência é que chegue cada vez mais perto do limite, dessa linha tênue que te separa do fim". Seria a morte assim mesmo tão terrível, seria mesmo o fim ou simplesmente um alívio sem volta, um escuro eterno, uma liberdade?

Antes de ir pra lá, insisti dias e mais dias, depois por horas e horas, minutos, segundos, meu corpo separado de mim mema, como se fosse capaz de se recuperar sem mim, sem meu cérebro, que queria desligar-se de tudo aquilo, enquanto engatinhava, arrastava-me porcamente, inumanamente, na penumbra do quarto. Mas os segundos passavam e meu cérebro sim, entregava-se, junto ao meu corpo,  no entanto. Apagava, não dormia, o que é diferente, apagava, delirava rapidamente e voltava assustado com minha insistência em viver. Estranho isso: minha insistência em viver me ligava ao mundo  novamente, deixando de lado os rápidos e curtos delírios que me tomavam naqueles segundos quase "minutos-eternidade" aos quais ele se entregava como um bebê nos colos da mãe. "Me deixe descansar", ele pedia, fatigado. "Não", eu respondia, categoricamente, ao abrir meus olhos com força e ao sentar-me, como uma mãe que nega, decididamente, o doce à sua criança que chora e estica a mão. "Só depois do almoço".

"Eu estou bem, estou bem, estou bem, não é nada, não há de ser, afinal, minha capacidade, vontade e prazer em ajudar as pessoas que me pedem algum tipo de auxílio continua a mesma. Sossega, criança chata, sossega que já não sou mais sua mãe, e não puxe minha saia, nem olhe por debaixo dela, não é da sua conta". Eu cuspo, tenho nojo, cuspo o que coloco na minha boca sem ao menos saber o que isso significa pra mim, mas não é do que coloco na boca e cuspo na privada, no lixo, no armário que tenho nojo, é de vc, criança enjoada, por que não te somes da minha vida?
     "Ela não tem ninguém aqui, absolutamente ninguém, onde está o pai dela? Ela diz que está trabalhando e não cede ao trabalho. O restante da família, em outro estado. Vamos ligar para outra pessoa". Decidem por mim e desistem de mim, eventualmente. "O ECG está alterado, os exames estão alterados, é necessário fazer mais um.". Ela está alterada, na realidade, ou não? Bem, qdo conversamos com ela, sorri, lê livros, anda, brinca com as crianças, uma ou outra vez somente apertou o próprio rosto e pediu que uma delas não a deixasse. "Não vou, não vou". Ela respondeu, e passou a mão de forma condescendente em seu braço, depois em abraço se fez um pequeno laço bonito e frágil, as mãos dela passando de forma  maternal, passeando pelas minhas costas, palavras faladas muito próximas do meu ouvido. Uma sensação rápida e estranha de que nunca mais iria ouvir aquela voz em pouco tempo, ou nenhuma daquelas vozes tão conhecidas me tomou de sobressalto e meu coração acelerou-se. Sabe, tudo é frágil demais, eu disse em pensamento. E o que falei: "muito obrigada por tudo, nem sei como agradecer de verdade". Sorri com o coração acelerado de medo, retomei à Medéia e seus infortúnios em Corinto, as letras meio embaralhadas e confusas em meio ao restante de sorriso frágil e idealizado que dei para acalmá-la (ou acalmar-me?). Desfez-se em poucos segundos. Tão frágil quanto os pacientes. Mas não eu, pensei. "A Medéia é tão forte e vai logo aniquilar a todos em nome de sua ira irreversível e seu desejo de vingança". Mas não deixa de ser frágil, minha linda e perigos Medéia, por que cede de forma tão grosseira ao seus desejos tão terríveis?" Larguei disso e compreendi poucos minutos depois o psiquismo complexo, esférico e obsessivo dessa personagem do imáginário da Grécia Antiga. Desejei mesmo que aniquilasse a todos como desejava, me tornei sua amiga íntima.

"I swear I don´t have a gun". And: "The only person standing in my way is myself".

Tem certeza, M.? Não, não é. Talvez eu tenhas essas armas apesar de negá-las, e há os inimigos no meu caminho que são exatamente os que se aprasentavam como amigos.

Aos poucos me sentia mais sensível e acalentada, aquecida em meu pensamentos, vi que já havia estado ali antes, em tantos lugares antes, minha saúde danificada, mas meu coração tranquilizando-se de forma quase natural, esperançosa, tb:


Mesmo com  a distância física óbvia, contei com o apoio incondicional de diversas pessoas. E pude sentir isso, assim como sinto agora, pouco an tes de ir descansar depois de palavras tão confusas. Eu as amo. Sou capaz de amar as pessoas  muito mais do que a mim mesma. Um dia me perguntaram em uma clínica, uma psicóloga perguntou, por que eu achava que estava ali, respondi: "eu amo, muito. Mas às pessoas, e não a mim. Por isso estou aqui." Pisquei nervosamente. Ela me olhou apreensiva, mas com resuícios de ternura. Seu nome era J. A vi duas vezes mais, apenas. E o tempo passou.

Eu sinto todas vocês, que talvez compartilhem desse mesmo pensamento que disse a ela. 

Estou com vocês. Quem sabe apenas nós mesmas sabemos o que é isso. Como a saúde se fragiliza tanto, com uma mente também tão confusa. "Where is my mind?"

Fico por aqui. Pretendo voltar.

3 de julho de 2011




04h02 da manhã, mais cerca de 5 ou 6 tentativas de te ligar...eu com purpurina, maquiagem no rosto, todo colorido, o cabelo com gel e laquê.

O cheiro do laquê, do brilho que passaram nos meus olhos: qdo olho pra luz ou ligeiramente pra cima, vejo tudo brilhando.
Como em uma viagem de LSD, ecstasy, sei lá.....perguntei pra Mirella, que tinha a mesma maquiagem: quando vc olha assim pra cima ou pra luz vc vê tudo brilhando? Ela sorriu e disse que sim, eu suspirei aliviada.

Tudo brilhando lá em cima no palco iluminado.

E depois também quando eu desci, e agora quando olho pra tela do computador, e me dói tanto não poder falar com vc.

Eu te amo mto, e esse brilho não é nada perto de te ver de verdade.
 
Todas as cores do espectro solar bem às minhas vistas, palpitando, e as que quero mesmo ver são aquelas que colorem sua face, os tons pastéis dos seus cabelos, pele e olhos.

21 de junho de 2011

Nesse último sábado fui a uma festa junina de um colégio. A escola em que eu estudei por seis meses e em que o filho da namorada do meu pai vai se forma esse ano. Fui acompanhá-los e ver o B. (o guri), dançar a quadrilha dele.
Comi algumas coisas tradicionais dessa época do ano e fiquei andando meio sem rumo pelo lugar absurdamente abarrotado de crianças e adolescentes completamente envolvidos com a festa, em alvoroço total. Os pais corriam de lá pra cá tentando manter alguma ordem, ao mesmo tempo que tiravam inúmeras fotos de seus filhos queridos. Fu ficando sufocada com tudo aquilo mas não entendia o porquê. Todos pareciam tão felizes e realmente estavam, certamente era algo pelo qual esperaram o mês inteiro, para rir, tirar fotos, encontra aquela pessoa que eles tanto paqueram e ver se rola alguma coisa....enfim, tantas possibilidades. 
Fui ao topo da arquibancada e fiquei lá sentada por quase uma hora, esperando que a quadrilha começasse logo pra que eu fosse embora à pé, não importava a distância. Não estava lá em cima à contragosto, era simplesmente onde conseguia observar e pensar com mais cuidado. Olhei todo aquele envolvimento, às vezes até mesmo angustiado, dos adolescentes, querendo de alguma forma um posicionamento, um lugar de prestígio, ou ao menos algo significativo, em todos os acontecimentos.
Me vieram flashes rápidos de memória sobre eu mesma na festa junina de 2004, nos curtos seis meses em que fiquei na escola. Me lembrei de que também naqueles dias tão antigos eu queria ir embora a qualquer custo, assim que eu fizesse o que foi a mim determinado.
Pensei por pouco tempo e me veio talvez uma resolução: me sentia sufocada por toda aquela alegria porque nunca a pude ter: me mudei de cidade, escola, amigos, assim como se muda de ano na colégio. 
Não firmei raízes em lugar nenhum. Qualquer tipo de pequeno alicerce, quando começava a se formar, era implodido por uma nova mudança. Por contingências externas quando pequena, e por escolhas talvez influenciáveis demais, impulsivas demais, assim que as pude ter. Como se tivesse que seguir a inércia das mudanças, em um ciclo contínuo, para que tudo fizesse sentido. Troca de cartas, e-mails, telefonemas, promessas de "nunca vou te esquecer", nada disso resiste ao poder destruidor do tempo. "Le tèmps detroit tout", como no filme "Irreversível". Será tudo mesmo irreversível?
E o choro, as lágrimas de despedida, as lembranças para "que não me esqueça, Li", as perguntas inconvenientes depois sobre o porquê de tal e qual mudança.
"De onde você é. Li?" - "É uma longa história". Na realidade, não pertenço a lugar nenhum. E isso não é sinal de liberdade, coragem ou ousadia, mas precedentes de uma intesa sensação de ausência de afetos e solidão. A Livs é sempre aquela que aparece de vez em quando, talvez bem-vinda, mas....pq mesmo ela veio?o que está fazendo?onde está morando? Ninguém sabe ou haveria de saber. Não dá, tantos lugares, tantas pessoas, pequenas e grandes alegrias, mudanças à francesa sem que ninguém se dê conta e também aquelas que causam alarde nos sete cantos. 

O que eu mais queria agora era estar para sempre colada a um chão de relva clara e perfumada, com meus pés envolvendo um bucado de terra, como raízes, minhas mãos apertando a grama com força sem querer soltar: "é daqui que eu sou, a partir de agora, é daqui que quero ser". Minhas pálpebras quentes amortecidas pelo calor do sol.
Uma construção sem alicerces não dura, logo seus moradores estarão em risco ou o prédio será evacuado para que seja implodido. 
Uma pessoa sem raízes não sossega o coração, não tem história definida LÁ, com as pessoas de LÁ, mas uma mistura de "LÁS" que me confunde sempre: escrevo ou falo o nome de um lugar querendo dizer outro, e aí já não sei mais qual queria dizer primeiro.
Uma pessoa sem raízes não sossega o coração, o cérebro, o estômago ou qualquer outro órgão. Não há histórias definidas pra contar. Há flashes de lugares avulsos.
Essa pessoa que não tem raízes ou aonde recorrer tem uma bolsa cheia de ansiolíticos que sempre pode levar consigo onde estiver. Os órgãos então se acalmam e algo como uma mornidão pútrida escapa disso tudo,como resultado, talvez tão falso e confuso quanto suas memórias.

27 de abril de 2011

Quando ela goza.
(Carpinejar, trechos).

Depois de amada, estendeu seu corpo ainda tremendo.
Quase chorava  de tanto que se expulsou. 
Quase chorava de tan to que se recebeu de volta. 
Qualquer palavra é intrusa. A boca eram seus cabelos boiando. Dizer o quê?

É ela e seu corpo redimidos.
É ela e seu corpo abraçados.
É ela e seu corpo alinhados como joelhos.
É ela devolvida a si, devolvida às alegrias proibidas, às alegrias quando se tocava em segredo.

É ela e os medos superados, a culpa liquidada, os seios observando as janelas. 
A rua da cintura, e a chuva, para não andar, para ficar debaixo das marquises esperando passar.

Desapareça aos poucos para que ela, enfim, se veja dançando para Deus. 

P.S.: Para Juni.
 Trechos de "Bipolar", por Carpinejar. Para mim, seria mesmo o meu "Insustentável amor".

 Eu amo desorganizado, desavergonhado. Tenho um amor que não é fácil de compreender porque é confuso. Não controlo, não planejo, não guardo para o mês seguinte. A confusão é quase uma solidão adicional. Uma solidão emprestada.

Sou daqueles que pedirá desculpa por algo que o outro  nem chegou a entender, que mandará nova carta para redimir uma mágoa inventada, que estará se cobrando antes de dizer.
Basta agluém me odiar que me solidarizo ao ódio. Quisera resistir mais. Mas eu faço comigo a minha pior vingança.
 Amar demais é o mesmo que não amar. A sobra é o mesmo que a falta. Desejava encontrar no mundo um amor igual ao meu. Se não suporto o meu próprio amor, com o exigir isso?
Um dia li uma frase de Hegel: "Nada de  grande se faz sem paixão". Mas nada de pequeno se faz sem amor.

Desço as escadas de casa ao trabalho com resignação, mas subo na volta pulando os degraus.
Esse sou eu: que vai pela esperança da volta.

23 de abril de 2011



 Úmido.

Ser fechada em um hospital por duas noites e três dias, unicamente para repor aquilo tudo que você mesma fez seu corpo perder. Uma desintegração rápida, no tempo lógico, mas lenta e penosa, quando pensada em tempo subjetivo. Um inferno que parece não ter fim. Pela segunda vez em quatro meses, mas dessa vez um tanto quanto mais séria, mais restrições, mais cuidados.
Cerca de 7,5 litros de soro constantemente repostos, com glicose, sódio, potássio e complexo B. De repente, todo aquele aparato passa a ser como uma parte presa a seu corpo, uma parte morta, mas ela demora a perceber que o que estava morto de verdade era todo o resto.
Passa na frente do necrotério do hospital em um momento raro em que escapa do quarto, fica parada ali por alguns minutos tentando sentir como seria a morte. O celular vibra dentro do bolso do seu casaco imenso: é a vida em forma humana, pungente e emocionada quem está ligando (J.). Então ela desperta daquele transe rápido de contato com a morte que ficou como uma ameaça por aqueles dias, e atende o celular.

Ter todo esse líquido dentro do meu corpo assim em tão pouco tempo me faz sentir estranha, pesada, disforme, amorfa. Como um tempo perdido, esforço perdido. Esforço em direção a que, mesmo?
A saliva novamente molhando minha boca aos poucos, meus olhos umidificando-se,  meus intestinos e estômago remexendo-se, cada parte do corpo embebida agora em líquido humano exigindo sua existência. É tão estranho sentir tudo isso de novo, silenciado por tanto tempo, mas há algo de fantástico nisso que me faz não querer fugir. Que me faz querer ficar assim por mais tempo. Mesmo que minha cabeça diga sempre o contrário: "Alice, olha lá, inchada, gorda, imensa, não era assim, volta, volta”.
       O coração bate finalmente compassado depois de tanto tempo de arritmias,
desenhadas em garranchos, cuidadosamente, por ECGs feitos de horas em horas. O sono volta calmo, silencioso e submisso, os sonhos recomeçam a existir com histórias imensas, logo quando eu já achava que nunca mais iria tê-los. Meu sono antes tão agitado e entrecortado, Morfeu não me levava nem em preces, meus sonhos todos badalados, barulhentos, embebidos em suor e raiva.
Meu corpo exige sua existência. E eu a quero. Teimo às vezes em insistir naquilo que não quero. Mas há um limite e intento desconstruir minhas lógicas construídas e compreendidas unicamente por mim mesma. Loucura ilógica aos olhos de qualquer outra pessoa.

A umidade interna restaurada do meu corpo parece extrapolar os contornos da minha pele e me envolver como uma bolha. Dessa vez é como se ganhasse um novo coração, um novo cabelo, um novo estômago, novos rins, novos intestinos. E também uma nova chance. E é dessa  última que não posso me esquecer. Se ao menos houvesse a certeza de que a vida iria me puxar de novo toda vez que. Mas não. E que bom que não.

5 de abril de 2011

Someone once said, about me: (M. said, in one of my dreams)
"And then she smiled. You know, her smile. That´s her kind of magic. She´s so good in concealing things, in hiding, avoiding. But I do know her. And I know she´s got so much love in her heart...showing your cards... it scares her to Death."

2 de abril de 2011

É o medo que comanda. Que me paralisa. Poderia dizer, "me move ou me bloqueia", mas não, não há movimento quando se tem medo.

Eu olho a cidade inteira da sacada, aqui do alto, é o quinto andar de um bairro localizado em uma parte alta da cidade. A brisa fresca com cheiro de álcool, música e promessas me toma por inteira, tenho vontade de sair. Me arrumo:banho, vestido, meias, sapatos, batom e perfume. Páro novamente diante da sacada e aquela grade de cerca de um metro de altura que me separa do resto da cidade parece ter a força de uma jaula, um calabouço. Penso, um milhão de vezes, e echego à conclusão de que me arrependeria demais se não desse uma chance para...se não desse uma chance de.


Pego a bolsa, as chaves, desço rapidamente pulando os degraus, de dois em dois. Antes, tentei falar com ela por telefone, quando há incentivo o medo parece que se esconde, mas não fui atendida.


Um quarteirão vencido, alguns carros passam, música alta, as luzes logo ali, me atraem como se fôssemos dois pólos de cargas opostas. Como um flash, mil planos são feitos e desfeitos na minha cabeça, o que pode ou não acontecer, dentro de uma mente tão confusa, fica no plano do ideal: eu teria que tentar para ver.


O outro quarteirão repentinamente se torna mais assustador do que o primeiro. Sem pensar quase nada, finjo ter esquecido algo, olhando nervosamente para minha bolsa, faço cara de chateada, volto a passos rápidos, afinal, tenho logo que pegar essa coisa que esqueci, há pessoas me esperando no lugar em que vou, não posso me atrasar, entendem?
Não posso me atrasar, e cerca de 10 minutos depois estou sentada  no sofá do apartamento com as luzes apagadas, o coração batendo rápido, descompassado, forte, insistindo alguma coisa que eu não posso decifrar. Automaticamente em pensamento eu justifico os batimentos terríveis no meu peito como sendo culpa do remédio X. Ocupo minha mente de novo com essas coisas que me movem. E logo me esqueço do que vim pegar aqui em casa, vim pegar, correndo, mas até de procurar eu me esqueci: a coragem de ser alguém e assumir quem sou.
Essa cidade me assusta. Estar sozinha de fato e em ato me assusta. Quão mais fácil é olhar agora mesmo da sacada as luzes que cintilam lá embaixo e ficam espelhadas na minha pupila. Por que não dormir? De forma induzida? Certamente. Acho às vezes que até os meus batimentos cardíacos são induzidos, assim mesmo como se meu corpo fosse uma máquina movida a estímulos químicos.
Alice, onde então fica você?
Eu não sei da minha parte interior, M., mas se for me procurar por fora, há grandes chances de me achar acoplada à sacada, o olhar perdido e as pernas desejando correr, ardentemente.

1 de abril de 2011

 About P.
 (or a toast to the past that shall remain in the past. May only the good memories be saved!)

 That's all I remember: the both of us in your bedroom, stoned, drunk, tired, everything around us so smoky and slightly sufocating. But a little spot of honest and shiny cheerfullness inside each one of us. 
All around was too luminous, rounding and rounding, a feeling of nonsense and almost phisic pleasure. But always almost: bodies too broken to feel the pleasure itself. We laid down on the carpet and all the pillows, distant church bells ringing, dirty smell of dust seemed so unreal. I said how amazing it would be if we were exactly in the middle of nowhere: a camp with grass completely empty and everything above would be stars. You got up and turned off all the lights, came back to me then: the bedroom became just as I wished: stickers in shape of stars, planets, constelations and moon were glued on the walls and roof.
Amazing feeling of magic, as if it could just exist. A very refreshing and cold breeze coming in from the big window closed together our hands and bodies. I could see you even surrounded in total darkness. Sleep and sleep for hours and dream the same nightmares. 

So many shits and all I can remember is this. I'll always love you,even knowing you left me when I nedded you to death, and I was always there in your ups and downs with drugs and alcohol. Twin souls, twin thoughts, twin self-destructive minds. I wait, and you know that.
O PORQUÊ DO DELICADO.

Fiquei me perguntado afinal qual a razão de ter escolhido o termo "Delicatessen" para a criação de um blog, onde supostamente eu escreveria meus devaneios, textos,tudo que de certa forma diz respeito a mim. Não consegui descobrir por que. Mas percebi um sentimento, um desejo escondido de sempre encontrar o delicado em tudo o que vejo. O delicado não é sempre aquilo que é o mais bonito, o mais limpo ou o mais puro,  mas aquilo que é o mais simples, de alma leve e descompromissada. Acho que me sinto assim, mesmo que não da forma como as pessoas imaginariam. Gosto daqueles gostos mais azedos e provocantes, das misturas mais estranhas, dos lugares mais cheios de lixo e pixações, onde de repente eu me deparo com um mato crescendo logo ali, insistentemente. O lugar fede, minhas narinas dilatam, mas não consigo deixar de parar por alguns instantes e ficar observando e talvez adivinhar o que levou aquele mato a nascer e se desenvolver ali. Talvez a mesma razão que nos obrigue a nascer e a nos desenvolvermos independente das circunstâncias, adversidades, da angústia inerente à vida. Temos de viver e pronto. O que nos resta é encontrar o delicado. Aquele mínimo movimento suave no lábio inferior da menina mais linda que você conhece. Aquele esgar nervoso nos olhos do homem por quem você primeiro se apaixonou, um nervosismo por não saber qual será sua reação se. E tudo o que você vê são essas pequenas coisas que nem eles mesmos vêem mas que te fazem sorrir.
O morador de rua com o corpo extremamente sujo, com a blusa doada da campanha de algum deputado, te extende um pedaço de papel dourado dizendo que é ouro e brilha como você. Eu então páro, crédula como sempre tive a (in) felicidade de ser, e com uma pequena queda de cabeça, como a de um pardal, pergunto se se trata mesmo de ouro. Ouço a risada e vejo o sorriso quase sem dentes. A felicidade em meio ao caos. A sujeira, o imperfeito, o incurável, tudo em conexão 
convergente e constante com o delicado.