Resolvi postar aqui depois de tanto tempo. Um lugar por mim abandonado em ato há bastante tempo, mas não em pensamento. É engraçado, estranho, atípico, vir postar aqui justamente quando estou tão confusa e não sei exatamente o que escrever. Meu cérebro foi, por tanto tempo e tantas vezes envolvido em pensamentos tão complexos, reveladores, libertadores, mas não vim compartilhar com ninguém, especialmente comigo mesma, que sou minha maior leitora. (Re)leitora mental de tudo o que escrevo, na verdade, porque me falta coragem ou mesmo vontade de revisar meus textos. Um medo, sensação estranha de achá-los inadequados, me mantém quase que sempre distante de vê-los novamente. Tanto os escritos quanto digitados. E cá estou, presa a pensamentos cíclicos e confusos, percepções estranhas com relação a mim mesma e às pessoas, tremendo como há tempos venho tremendo, por dentro e por fora, sem nenhuma resolução complicada ou inteligente, apenas a necessidade de voltar a escrever.
Retornei à casa do meu pai, à minha casa, há poucos minutos. Por alguns dias entreguei meu corpo aos cuidados constantes e atentos de médicos, que entravam, saíam, me passavam informações atravessadas, um grande ponto de i nterrogação na minha cabeça. Muitos deles eu já conhecia de vista ou mesmo de conversas, atendimentos, avaliações. Alguns me reconheceram, outros fizeram questão que isso não acontecesse. Pretendemos evitar uma internação prolongada para o seu caso. "Fazemos aqui o possível para te reestabelecer, te devolvemos à sua casa, entregamos parte do tratamento a você, que deve se cuidar. Aqui,onde moramos, não há lugar para tratamento especializado de casos como o seu. Ou você morre, ou melhora". Ou vai para outra cidade e desiste de seus sonhos, me veio então o restante do raciocínio, mentalmente. "Você ainda não morreu, mas piora, e a tendência é que chegue cada vez mais perto do limite, dessa linha tênue que te separa do fim". Seria a morte assim mesmo tão terrível, seria mesmo o fim ou simplesmente um alívio sem volta, um escuro eterno, uma liberdade?
Antes de ir pra lá, insisti dias e mais dias, depois por horas e horas, minutos, segundos, meu corpo separado de mim mema, como se fosse capaz de se recuperar sem mim, sem meu cérebro, que queria desligar-se de tudo aquilo, enquanto engatinhava, arrastava-me porcamente, inumanamente, na penumbra do quarto. Mas os segundos passavam e meu cérebro sim, entregava-se, junto ao meu corpo, no entanto. Apagava, não dormia, o que é diferente, apagava, delirava rapidamente e voltava assustado com minha insistência em viver. Estranho isso: minha insistência em viver me ligava ao mundo novamente, deixando de lado os rápidos e curtos delírios que me tomavam naqueles segundos quase "minutos-eternidade" aos quais ele se entregava como um bebê nos colos da mãe. "Me deixe descansar", ele pedia, fatigado. "Não", eu respondia, categoricamente, ao abrir meus olhos com força e ao sentar-me, como uma mãe que nega, decididamente, o doce à sua criança que chora e estica a mão. "Só depois do almoço".
"Eu estou bem, estou bem, estou bem, não é nada, não há de ser, afinal, minha capacidade, vontade e prazer em ajudar as pessoas que me pedem algum tipo de auxílio continua a mesma. Sossega, criança chata, sossega que já não sou mais sua mãe, e não puxe minha saia, nem olhe por debaixo dela, não é da sua conta". Eu cuspo, tenho nojo, cuspo o que coloco na minha boca sem ao menos saber o que isso significa pra mim, mas não é do que coloco na boca e cuspo na privada, no lixo, no armário que tenho nojo, é de vc, criança enjoada, por que não te somes da minha vida?

"Ela não tem ninguém aqui, absolutamente ninguém, onde está o pai dela? Ela diz que está trabalhando e não cede ao trabalho. O restante da família, em outro estado. Vamos ligar para outra pessoa". Decidem por mim e desistem de mim, eventualmente. "O ECG está alterado, os exames estão alterados, é necessário fazer mais um.". Ela está alterada, na realidade, ou não? Bem, qdo conversamos com ela, sorri, lê livros, anda, brinca com as crianças, uma ou outra vez somente apertou o próprio rosto e pediu que uma delas não a deixasse. "Não vou, não vou". Ela respondeu, e passou a mão de forma condescendente em seu braço, depois em abraço se fez um pequeno laço bonito e frágil, as mãos dela passando de forma maternal, passeando pelas minhas costas, palavras faladas muito próximas do meu ouvido. Uma sensação rápida e estranha de que nunca mais iria ouvir aquela voz em pouco tempo, ou nenhuma daquelas vozes tão conhecidas me tomou de sobressalto e meu coração acelerou-se. Sabe, tudo é frágil demais, eu disse em pensamento. E o que falei: "muito obrigada por tudo, nem sei como agradecer de verdade". Sorri com o coração acelerado de medo, retomei à Medéia e seus infortúnios em Corinto, as letras meio embaralhadas e confusas em meio ao restante de sorriso frágil e idealizado que dei para acalmá-la (ou acalmar-me?). Desfez-se em poucos segundos. Tão frágil quanto os pacientes. Mas não eu, pensei. "A Medéia é tão forte e vai logo aniquilar a todos em nome de sua ira irreversível e seu desejo de vingança". Mas não deixa de ser frágil, minha linda e perigos Medéia, por que cede de forma tão grosseira ao seus desejos tão terríveis?" Larguei disso e compreendi poucos minutos depois o psiquismo complexo, esférico e obsessivo dessa personagem do imáginário da Grécia Antiga. Desejei mesmo que aniquilasse a todos como desejava, me tornei sua amiga íntima.
"I swear I don´t have a gun". And: "The only person standing in my way is myself".
Tem certeza, M.? Não, não é. Talvez eu tenhas essas armas apesar de negá-las, e há os inimigos no meu caminho que são exatamente os que se aprasentavam como amigos.
Aos poucos me sentia mais sensível e acalentada, aquecida em meu pensamentos, vi que já havia estado ali antes, em tantos lugares antes, minha saúde danificada, mas meu coração tranquilizando-se de forma quase natural, esperançosa, tb:
Mesmo com a distância física óbvia, contei com o apoio incondicional de diversas pessoas. E pude sentir isso, assim como sinto agora, pouco an tes de ir descansar depois de palavras tão confusas. Eu as amo. Sou capaz de amar as pessoas muito mais do que a mim mesma. Um dia me perguntaram em uma clínica, uma psicóloga perguntou, por que eu achava que estava ali, respondi: "eu amo, muito. Mas às pessoas, e não a mim. Por isso estou aqui." Pisquei nervosamente. Ela me olhou apreensiva, mas com resuícios de ternura. Seu nome era J. A vi duas vezes mais, apenas. E o tempo passou.
Eu sinto todas vocês, que talvez compartilhem desse mesmo pensamento que disse a ela.
Estou com vocês. Quem sabe apenas nós mesmas sabemos o que é isso. Como a saúde se fragiliza tanto, com uma mente também tão confusa. "Where is my mind?"
Fico por aqui. Pretendo voltar.