18 de outubro de 2011

O estranho gosto de ferro na boca. A delícia de saber que esse ferro vem de outra pessoa. E que passa a constituir quem o consome.

Há momentos em que apenas o sangue é pouco. Pede-se por mais.
Uma vez que a alma e a personalidade já foram devidamente apropriadas, toma-se o sangue.
Com um gosto descomunal, digno de serial killers profissionais, Hannibal Lecter que se cuide, para não ser desbancado.

Não esse sangue que leva os nutrientes e faz a troca de gases com as células. 
Exatamente aquele sangue que corre e pulsa nas veias, o que me faz saber que, minimamente, posso viver fisicamente.
Esse é sugado até a última gota, sem nenhuma demonstração de piedade.
"Saia daqui!" -nas entrelinhas de palavras supostamente carinhosas- "mas não se esqueça de deixar também seu sangue comigo".
E eu deixo, com toda a ingenuidade que o Diabo me fez o favor de dar em abundância, mesmo que necessitasse tanto desse fluido vital. Eu o dôo, de mãos abertas e cândidas, se isso te faz feliz, meu amor. 

"Você não pode doar sangue". Ouço quando vou ao Banco de Sangue municipal oferecer ajuda a um colega acidentado. "Seu peso não chega próximo ao mínimo necessário, me desculpe. Próximo!"
Esqueci-me também que anulei meu corpo em nome da existência plena e feliz de outro ser. Que também deixei parte dele, e continuarei deixando, enquanto minha mente ilógica entender nisso uma possibilidade de salvação de outrém. O alimento do seu corpo foi minha essência, minha alma, e, depois disso, quase nada me restou.
  
A não ser, claro, certezas ilógicas à que me agarro com unhas e dentes. Os mesmos dentes que mordem a garrafinha de água, também vermelha como essa letra e meu sangue esquálido e ruim, enquanto espero as horas passarem.

***["Narciso acha feio tudo aquilo que não é espelho"].***
A imagem refletida, não obstante, pode não ser a dele mesmo. 
Ou não corresponder à realidade: é da natureza do reflexo não compactuar com amenidades realísticas.

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