19 de outubro de 2011

Chá adoçado com pílulas.

                                                        ***

Todos os dias lá foram de um calor tão intenso, que chegava a ser reconfortante. Envolvia meu corpo inteiro quase como água, e nos fazia sempre ficar do lado de fora, conversando, rindo, por vezes chorando por alguma coisa, mas um reconfortava o outro. Éramos uma família. Em seis, por um tempo sete, depois oito, mas permanentemente seis pessoas, cada uma com sua história, suas questões, seus motivos, seu quarto, e um pátio no meio.

O posto de enfermaria, ou o panótico (como fui saber depois pelo P.C. como Foucault chamava esse lugar), ficava posicionado no fim do pátio, à esquerda. Na extremidade direita, o refeitório, as mesas, a cozinha. Em ambas as laterais, os quartos, na de cima, além dos quartos usados para descanso do pessoal do HD, a sala da psicóloga, da TO, e, bem escondido dos olhos desatentos, atrás do panótico ficava uma porta azul com uma placa em cima: "consultório". Era ali que, invariavelmente, iríamos todos os dias. Consegui fugir em apenas um, pulei na piscina e estava hum...molhada demais pra entrar. Nos outros, me ordenaram ir à consulta mesmo de maiô, cabelos e shorts encharcados.

Toda quarta-feira era dia da reunião da equipe, quando muitas coisas poderiam ser definidas: alta, permanência, fechamento de diagnóstico, medicação, ausência dela, nossa vida lá dentro. 

Sentada em uma das muretas que transpiravam com o sol das duas horas da tarde, recolhi minhas pernas na direção do meu peito, e fiquei com o joelho no queixo, observando de longe a salinha, por vezes brincando de sugar e morder meu joelho direito, tentando de qualquer forma arrancar uma casquinha da cicatriz que entregava minhas estripulias.

"She´s quite self destructive, I might say".
"And she´s refusing to eat normally for days, complains a lot about the nurse who threatens her with tubefeeding. She´s a rules breaker, sir."
"And what about the close friendship with the doctor who is inpatient, here, as well?!  I´m sorry if I´m overrating it, gentleman, but this girl is dangerous, may I say."
"She came from Wonderland, she acts differently, it´s a fact, maybe we should give her a chance..."
"Guilty."
"Guilty."
"Guilty."
"CUT OFF THE HEAD"


                                                        ***


"Li, vem jogar baralho, a gente já vai começar, vem!", gritou a Tats, pouco depois de um bom tempo em que me entreguei a devaneios, com os olhos vidrados na porta azul, os joelhos já vermelhos de tanto apertá-los.

Nesse momento ele sai do quarto dele, andando de uma forma arrastada, única, grande e tranquilo como um monge budista, os olhos semicerrados com toda aquela luz, estava provavelmente lendo, eu pensei. Olha em volta, analisando o ambiente, como sempre faz. Agora vai aquietar os olhos na mureta, dizer naquele tom engraçado "o que é que a senhorita faz aí sentada nesse sol?.. em que está pensando". E o fez. Sentou-se ali, mais uns minutos de conversa, encaminhei-me para o refeitório pra jogar cartas. "Vou continuar lendo, vejo vocês mais tarde", ele disse. 


Enquanto caminhava, pensava se seria a Rainha de Copas com seu exército de cartas (marcadas), ou o inofensivo Chapeleiro Maluco, que se mostrava ao meu lado, quem venceria aquela batalha. Se eu poderia voltar para o lugar de onde vim. 

Logo depois da rodada de partidas do jogo, que o M. ganhou com maestria, era a hora do chá da tarde.


"Come to the tea party with me, would you?
                                                 
                                                    ***




 

Nenhum comentário:

Postar um comentário