23 de abril de 2011



 Úmido.

Ser fechada em um hospital por duas noites e três dias, unicamente para repor aquilo tudo que você mesma fez seu corpo perder. Uma desintegração rápida, no tempo lógico, mas lenta e penosa, quando pensada em tempo subjetivo. Um inferno que parece não ter fim. Pela segunda vez em quatro meses, mas dessa vez um tanto quanto mais séria, mais restrições, mais cuidados.
Cerca de 7,5 litros de soro constantemente repostos, com glicose, sódio, potássio e complexo B. De repente, todo aquele aparato passa a ser como uma parte presa a seu corpo, uma parte morta, mas ela demora a perceber que o que estava morto de verdade era todo o resto.
Passa na frente do necrotério do hospital em um momento raro em que escapa do quarto, fica parada ali por alguns minutos tentando sentir como seria a morte. O celular vibra dentro do bolso do seu casaco imenso: é a vida em forma humana, pungente e emocionada quem está ligando (J.). Então ela desperta daquele transe rápido de contato com a morte que ficou como uma ameaça por aqueles dias, e atende o celular.

Ter todo esse líquido dentro do meu corpo assim em tão pouco tempo me faz sentir estranha, pesada, disforme, amorfa. Como um tempo perdido, esforço perdido. Esforço em direção a que, mesmo?
A saliva novamente molhando minha boca aos poucos, meus olhos umidificando-se,  meus intestinos e estômago remexendo-se, cada parte do corpo embebida agora em líquido humano exigindo sua existência. É tão estranho sentir tudo isso de novo, silenciado por tanto tempo, mas há algo de fantástico nisso que me faz não querer fugir. Que me faz querer ficar assim por mais tempo. Mesmo que minha cabeça diga sempre o contrário: "Alice, olha lá, inchada, gorda, imensa, não era assim, volta, volta”.
       O coração bate finalmente compassado depois de tanto tempo de arritmias,
desenhadas em garranchos, cuidadosamente, por ECGs feitos de horas em horas. O sono volta calmo, silencioso e submisso, os sonhos recomeçam a existir com histórias imensas, logo quando eu já achava que nunca mais iria tê-los. Meu sono antes tão agitado e entrecortado, Morfeu não me levava nem em preces, meus sonhos todos badalados, barulhentos, embebidos em suor e raiva.
Meu corpo exige sua existência. E eu a quero. Teimo às vezes em insistir naquilo que não quero. Mas há um limite e intento desconstruir minhas lógicas construídas e compreendidas unicamente por mim mesma. Loucura ilógica aos olhos de qualquer outra pessoa.

A umidade interna restaurada do meu corpo parece extrapolar os contornos da minha pele e me envolver como uma bolha. Dessa vez é como se ganhasse um novo coração, um novo cabelo, um novo estômago, novos rins, novos intestinos. E também uma nova chance. E é dessa  última que não posso me esquecer. Se ao menos houvesse a certeza de que a vida iria me puxar de novo toda vez que. Mas não. E que bom que não.

Um comentário:

  1. Como dito, o substrato é triste, mas qnd vc lê algo assim a beleza vem, nao só do arranjo de palavras, mas da resiliencia q fica subentendida.

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