1 de abril de 2011

"Estamos sempre indo de volta para casa". Foi exatamente essa frase que se passou pela minha cabeça quando, em meados de dezembro do ano passado meu pai foi me buscar onde eu morava, dizendo que agora era o momento em que ele me receberia em sua casa.
Três anos haviam se passado desde minha decisão crucial e perturbadora de me afastar do Lar. Queria me afastar de tudo, que pra mim eram todas aquelas coisas que me mantinham como um passarinho em extinção, com uma pequena pulserinha na pata, com seus dados, números e informações acessíveis. Queria me libertar. E quem sabe construir  meu próprio Lar, com meus amigos, relacionamentos, afetos, conquistas acadêmicas. Fui com tudo, minha vontade de mergulhar era imensa.
Na verdade, talvez imensa e inadequada demais: três anos de festas, descobertas, experimentações, curiosidades realizadas à base do risco, sem pensar em nada. Ao mesmo tempo que juntei acontecimentos, enriquecimentos, me perdi, não poderia mais me reconhecer, e caí  nas garras da minha própria gana por liberdade.
"Minha casa estará sempre aberta pra você minha filha, nunca tenha dúvidas disso. Você é feita da carne do meu coração". Com essas palavras, assim como o André foi socorrido por seu irmão primogênito Pedro, minha presença na casa do pai foi exigida por ele mesmo, meu regresso, em silêncio e consentimento. 
Esse ano que passo aqui, então, essa jornada iniciada em fins de dezembro, se torna então u ma provação, na medida em que abandono agora a vida de todas as "quinquilharias mundanas da minha caixa" para tentar me adequar à normalidade. Costumo dizer que é um ano de inferno, tortura, ausência de liberdade ou privacidade. 
A questão, no entanto, é se eu era realmente livre por todos esses anos, ou se era simplesmente uma escrava à mercê dos anseios gelados das minhas vontades imediatas. Provavelmente a segunda opção.
Tenho a mínima coragem de perceber que o gosto amargo e putrefato de estar nessa cidade vem das exigências imediatas colocadas em mim, o que não haveria de ser diferente, e com as quais tenho de lidar e responder à altura. Abandonar os segredos sujos, o ciclo quase prazeroso de auto-destruição constante não é tentador. André, meu doce André. Em teus devaneios de criança com a vontade inexorável de ganhar o mundo eu me identifico e contigo me compadeço. E agradeço por ter a sorte de voltar ao Lar. Assim como você voltou, mesmo que no mundo mágico de uma ficção.

Um comentário:

  1. Liberdade... palavra que não te prende nem ao seu próprio significado... controversa, polêmica, desejada, desafiadora... vc teria coragem para assumir que é um ser humano livre? Ser livre traz em si uma responsabilidade imensa sobre vc mesma. Ser livre eh estar ainda mais presa, presa a si mesma, presa aos seus medos, presa ao seu mundo, a suas angústias, aos seus pensamentos, à sua verdade. "Eu estou condenado a ser livre." Sartre. Sim... Vc é livre!

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