É o medo que comanda. Que me paralisa. Poderia dizer, "me move ou me bloqueia", mas não, não há movimento quando se tem medo.
Eu olho a cidade inteira da sacada, aqui do alto, é o quinto andar de um bairro localizado em uma parte alta da cidade. A brisa fresca com cheiro de álcool, música e promessas me toma por inteira, tenho vontade de sair. Me arrumo:banho, vestido, meias, sapatos, batom e perfume. Páro novamente diante da sacada e aquela grade de cerca de um metro de altura que me separa do resto da cidade parece ter a força de uma jaula, um calabouço. Penso, um milhão de vezes, e echego à conclusão de que me arrependeria demais se não desse uma chance para...se não desse uma chance de.
Pego a bolsa, as chaves, desço rapidamente pulando os degraus, de dois em dois. Antes, tentei falar com ela por telefone, quando há incentivo o medo parece que se esconde, mas não fui atendida.
Um quarteirão vencido, alguns carros passam, música alta, as luzes logo ali, me atraem como se fôssemos dois pólos de cargas opostas. Como um flash, mil planos são feitos e desfeitos na minha cabeça, o que pode ou não acontecer, dentro de uma mente tão confusa, fica no plano do ideal: eu teria que tentar para ver.
O outro quarteirão repentinamente se torna mais assustador do que o primeiro. Sem pensar quase nada, finjo ter esquecido algo, olhando nervosamente para minha bolsa, faço cara de chateada, volto a passos rápidos, afinal, tenho logo que pegar essa coisa que esqueci, há pessoas me esperando no lugar em que vou, não posso me atrasar, entendem?
Não posso me atrasar, e cerca de 10 minutos depois estou sentada no sofá do apartamento com as luzes apagadas, o coração batendo rápido, descompassado, forte, insistindo alguma coisa que eu não posso decifrar. Automaticamente em pensamento eu justifico os batimentos terríveis no meu peito como sendo culpa do remédio X. Ocupo minha mente de novo com essas coisas que me movem. E logo me esqueço do que vim pegar aqui em casa, vim pegar, correndo, mas até de procurar eu me esqueci: a coragem de ser alguém e assumir quem sou.
Essa cidade me assusta. Estar sozinha de fato e em ato me assusta. Quão mais fácil é olhar agora mesmo da sacada as luzes que cintilam lá embaixo e ficam espelhadas na minha pupila. Por que não dormir? De forma induzida? Certamente. Acho às vezes que até os meus batimentos cardíacos são induzidos, assim mesmo como se meu corpo fosse uma máquina movida a estímulos químicos.
Alice, onde então fica você?
Eu não sei da minha parte interior, M., mas se for me procurar por fora, há grandes chances de me achar acoplada à sacada, o olhar perdido e as pernas desejando correr, ardentemente.

O medo... sempre nos acompanhando, faz parte do nosso instinto de sobrevivência. Ouvi uma vez que coragem não é ausência de medo, mas domínio do mesmo. O medo, que paralisa, só não é pior que o medo que faz retroceder... mas recuar também pode ser uma atitude inteligente de auto-preservação, desde que vc volte à sacada, fixe seu olhar na cidade e se prepare para a próxima tentativa de voltar lá, entre as luzes que agora se fazem tão distantes.
ResponderExcluir