27 de abril de 2011

Quando ela goza.
(Carpinejar, trechos).

Depois de amada, estendeu seu corpo ainda tremendo.
Quase chorava  de tanto que se expulsou. 
Quase chorava de tan to que se recebeu de volta. 
Qualquer palavra é intrusa. A boca eram seus cabelos boiando. Dizer o quê?

É ela e seu corpo redimidos.
É ela e seu corpo abraçados.
É ela e seu corpo alinhados como joelhos.
É ela devolvida a si, devolvida às alegrias proibidas, às alegrias quando se tocava em segredo.

É ela e os medos superados, a culpa liquidada, os seios observando as janelas. 
A rua da cintura, e a chuva, para não andar, para ficar debaixo das marquises esperando passar.

Desapareça aos poucos para que ela, enfim, se veja dançando para Deus. 

P.S.: Para Juni.
 Trechos de "Bipolar", por Carpinejar. Para mim, seria mesmo o meu "Insustentável amor".

 Eu amo desorganizado, desavergonhado. Tenho um amor que não é fácil de compreender porque é confuso. Não controlo, não planejo, não guardo para o mês seguinte. A confusão é quase uma solidão adicional. Uma solidão emprestada.

Sou daqueles que pedirá desculpa por algo que o outro  nem chegou a entender, que mandará nova carta para redimir uma mágoa inventada, que estará se cobrando antes de dizer.
Basta agluém me odiar que me solidarizo ao ódio. Quisera resistir mais. Mas eu faço comigo a minha pior vingança.
 Amar demais é o mesmo que não amar. A sobra é o mesmo que a falta. Desejava encontrar no mundo um amor igual ao meu. Se não suporto o meu próprio amor, com o exigir isso?
Um dia li uma frase de Hegel: "Nada de  grande se faz sem paixão". Mas nada de pequeno se faz sem amor.

Desço as escadas de casa ao trabalho com resignação, mas subo na volta pulando os degraus.
Esse sou eu: que vai pela esperança da volta.

23 de abril de 2011



 Úmido.

Ser fechada em um hospital por duas noites e três dias, unicamente para repor aquilo tudo que você mesma fez seu corpo perder. Uma desintegração rápida, no tempo lógico, mas lenta e penosa, quando pensada em tempo subjetivo. Um inferno que parece não ter fim. Pela segunda vez em quatro meses, mas dessa vez um tanto quanto mais séria, mais restrições, mais cuidados.
Cerca de 7,5 litros de soro constantemente repostos, com glicose, sódio, potássio e complexo B. De repente, todo aquele aparato passa a ser como uma parte presa a seu corpo, uma parte morta, mas ela demora a perceber que o que estava morto de verdade era todo o resto.
Passa na frente do necrotério do hospital em um momento raro em que escapa do quarto, fica parada ali por alguns minutos tentando sentir como seria a morte. O celular vibra dentro do bolso do seu casaco imenso: é a vida em forma humana, pungente e emocionada quem está ligando (J.). Então ela desperta daquele transe rápido de contato com a morte que ficou como uma ameaça por aqueles dias, e atende o celular.

Ter todo esse líquido dentro do meu corpo assim em tão pouco tempo me faz sentir estranha, pesada, disforme, amorfa. Como um tempo perdido, esforço perdido. Esforço em direção a que, mesmo?
A saliva novamente molhando minha boca aos poucos, meus olhos umidificando-se,  meus intestinos e estômago remexendo-se, cada parte do corpo embebida agora em líquido humano exigindo sua existência. É tão estranho sentir tudo isso de novo, silenciado por tanto tempo, mas há algo de fantástico nisso que me faz não querer fugir. Que me faz querer ficar assim por mais tempo. Mesmo que minha cabeça diga sempre o contrário: "Alice, olha lá, inchada, gorda, imensa, não era assim, volta, volta”.
       O coração bate finalmente compassado depois de tanto tempo de arritmias,
desenhadas em garranchos, cuidadosamente, por ECGs feitos de horas em horas. O sono volta calmo, silencioso e submisso, os sonhos recomeçam a existir com histórias imensas, logo quando eu já achava que nunca mais iria tê-los. Meu sono antes tão agitado e entrecortado, Morfeu não me levava nem em preces, meus sonhos todos badalados, barulhentos, embebidos em suor e raiva.
Meu corpo exige sua existência. E eu a quero. Teimo às vezes em insistir naquilo que não quero. Mas há um limite e intento desconstruir minhas lógicas construídas e compreendidas unicamente por mim mesma. Loucura ilógica aos olhos de qualquer outra pessoa.

A umidade interna restaurada do meu corpo parece extrapolar os contornos da minha pele e me envolver como uma bolha. Dessa vez é como se ganhasse um novo coração, um novo cabelo, um novo estômago, novos rins, novos intestinos. E também uma nova chance. E é dessa  última que não posso me esquecer. Se ao menos houvesse a certeza de que a vida iria me puxar de novo toda vez que. Mas não. E que bom que não.

5 de abril de 2011

Someone once said, about me: (M. said, in one of my dreams)
"And then she smiled. You know, her smile. That´s her kind of magic. She´s so good in concealing things, in hiding, avoiding. But I do know her. And I know she´s got so much love in her heart...showing your cards... it scares her to Death."

2 de abril de 2011

É o medo que comanda. Que me paralisa. Poderia dizer, "me move ou me bloqueia", mas não, não há movimento quando se tem medo.

Eu olho a cidade inteira da sacada, aqui do alto, é o quinto andar de um bairro localizado em uma parte alta da cidade. A brisa fresca com cheiro de álcool, música e promessas me toma por inteira, tenho vontade de sair. Me arrumo:banho, vestido, meias, sapatos, batom e perfume. Páro novamente diante da sacada e aquela grade de cerca de um metro de altura que me separa do resto da cidade parece ter a força de uma jaula, um calabouço. Penso, um milhão de vezes, e echego à conclusão de que me arrependeria demais se não desse uma chance para...se não desse uma chance de.


Pego a bolsa, as chaves, desço rapidamente pulando os degraus, de dois em dois. Antes, tentei falar com ela por telefone, quando há incentivo o medo parece que se esconde, mas não fui atendida.


Um quarteirão vencido, alguns carros passam, música alta, as luzes logo ali, me atraem como se fôssemos dois pólos de cargas opostas. Como um flash, mil planos são feitos e desfeitos na minha cabeça, o que pode ou não acontecer, dentro de uma mente tão confusa, fica no plano do ideal: eu teria que tentar para ver.


O outro quarteirão repentinamente se torna mais assustador do que o primeiro. Sem pensar quase nada, finjo ter esquecido algo, olhando nervosamente para minha bolsa, faço cara de chateada, volto a passos rápidos, afinal, tenho logo que pegar essa coisa que esqueci, há pessoas me esperando no lugar em que vou, não posso me atrasar, entendem?
Não posso me atrasar, e cerca de 10 minutos depois estou sentada  no sofá do apartamento com as luzes apagadas, o coração batendo rápido, descompassado, forte, insistindo alguma coisa que eu não posso decifrar. Automaticamente em pensamento eu justifico os batimentos terríveis no meu peito como sendo culpa do remédio X. Ocupo minha mente de novo com essas coisas que me movem. E logo me esqueço do que vim pegar aqui em casa, vim pegar, correndo, mas até de procurar eu me esqueci: a coragem de ser alguém e assumir quem sou.
Essa cidade me assusta. Estar sozinha de fato e em ato me assusta. Quão mais fácil é olhar agora mesmo da sacada as luzes que cintilam lá embaixo e ficam espelhadas na minha pupila. Por que não dormir? De forma induzida? Certamente. Acho às vezes que até os meus batimentos cardíacos são induzidos, assim mesmo como se meu corpo fosse uma máquina movida a estímulos químicos.
Alice, onde então fica você?
Eu não sei da minha parte interior, M., mas se for me procurar por fora, há grandes chances de me achar acoplada à sacada, o olhar perdido e as pernas desejando correr, ardentemente.

1 de abril de 2011

 About P.
 (or a toast to the past that shall remain in the past. May only the good memories be saved!)

 That's all I remember: the both of us in your bedroom, stoned, drunk, tired, everything around us so smoky and slightly sufocating. But a little spot of honest and shiny cheerfullness inside each one of us. 
All around was too luminous, rounding and rounding, a feeling of nonsense and almost phisic pleasure. But always almost: bodies too broken to feel the pleasure itself. We laid down on the carpet and all the pillows, distant church bells ringing, dirty smell of dust seemed so unreal. I said how amazing it would be if we were exactly in the middle of nowhere: a camp with grass completely empty and everything above would be stars. You got up and turned off all the lights, came back to me then: the bedroom became just as I wished: stickers in shape of stars, planets, constelations and moon were glued on the walls and roof.
Amazing feeling of magic, as if it could just exist. A very refreshing and cold breeze coming in from the big window closed together our hands and bodies. I could see you even surrounded in total darkness. Sleep and sleep for hours and dream the same nightmares. 

So many shits and all I can remember is this. I'll always love you,even knowing you left me when I nedded you to death, and I was always there in your ups and downs with drugs and alcohol. Twin souls, twin thoughts, twin self-destructive minds. I wait, and you know that.
O PORQUÊ DO DELICADO.

Fiquei me perguntado afinal qual a razão de ter escolhido o termo "Delicatessen" para a criação de um blog, onde supostamente eu escreveria meus devaneios, textos,tudo que de certa forma diz respeito a mim. Não consegui descobrir por que. Mas percebi um sentimento, um desejo escondido de sempre encontrar o delicado em tudo o que vejo. O delicado não é sempre aquilo que é o mais bonito, o mais limpo ou o mais puro,  mas aquilo que é o mais simples, de alma leve e descompromissada. Acho que me sinto assim, mesmo que não da forma como as pessoas imaginariam. Gosto daqueles gostos mais azedos e provocantes, das misturas mais estranhas, dos lugares mais cheios de lixo e pixações, onde de repente eu me deparo com um mato crescendo logo ali, insistentemente. O lugar fede, minhas narinas dilatam, mas não consigo deixar de parar por alguns instantes e ficar observando e talvez adivinhar o que levou aquele mato a nascer e se desenvolver ali. Talvez a mesma razão que nos obrigue a nascer e a nos desenvolvermos independente das circunstâncias, adversidades, da angústia inerente à vida. Temos de viver e pronto. O que nos resta é encontrar o delicado. Aquele mínimo movimento suave no lábio inferior da menina mais linda que você conhece. Aquele esgar nervoso nos olhos do homem por quem você primeiro se apaixonou, um nervosismo por não saber qual será sua reação se. E tudo o que você vê são essas pequenas coisas que nem eles mesmos vêem mas que te fazem sorrir.
O morador de rua com o corpo extremamente sujo, com a blusa doada da campanha de algum deputado, te extende um pedaço de papel dourado dizendo que é ouro e brilha como você. Eu então páro, crédula como sempre tive a (in) felicidade de ser, e com uma pequena queda de cabeça, como a de um pardal, pergunto se se trata mesmo de ouro. Ouço a risada e vejo o sorriso quase sem dentes. A felicidade em meio ao caos. A sujeira, o imperfeito, o incurável, tudo em conexão 
convergente e constante com o delicado.
"Estamos sempre indo de volta para casa". Foi exatamente essa frase que se passou pela minha cabeça quando, em meados de dezembro do ano passado meu pai foi me buscar onde eu morava, dizendo que agora era o momento em que ele me receberia em sua casa.
Três anos haviam se passado desde minha decisão crucial e perturbadora de me afastar do Lar. Queria me afastar de tudo, que pra mim eram todas aquelas coisas que me mantinham como um passarinho em extinção, com uma pequena pulserinha na pata, com seus dados, números e informações acessíveis. Queria me libertar. E quem sabe construir  meu próprio Lar, com meus amigos, relacionamentos, afetos, conquistas acadêmicas. Fui com tudo, minha vontade de mergulhar era imensa.
Na verdade, talvez imensa e inadequada demais: três anos de festas, descobertas, experimentações, curiosidades realizadas à base do risco, sem pensar em nada. Ao mesmo tempo que juntei acontecimentos, enriquecimentos, me perdi, não poderia mais me reconhecer, e caí  nas garras da minha própria gana por liberdade.
"Minha casa estará sempre aberta pra você minha filha, nunca tenha dúvidas disso. Você é feita da carne do meu coração". Com essas palavras, assim como o André foi socorrido por seu irmão primogênito Pedro, minha presença na casa do pai foi exigida por ele mesmo, meu regresso, em silêncio e consentimento. 
Esse ano que passo aqui, então, essa jornada iniciada em fins de dezembro, se torna então u ma provação, na medida em que abandono agora a vida de todas as "quinquilharias mundanas da minha caixa" para tentar me adequar à normalidade. Costumo dizer que é um ano de inferno, tortura, ausência de liberdade ou privacidade. 
A questão, no entanto, é se eu era realmente livre por todos esses anos, ou se era simplesmente uma escrava à mercê dos anseios gelados das minhas vontades imediatas. Provavelmente a segunda opção.
Tenho a mínima coragem de perceber que o gosto amargo e putrefato de estar nessa cidade vem das exigências imediatas colocadas em mim, o que não haveria de ser diferente, e com as quais tenho de lidar e responder à altura. Abandonar os segredos sujos, o ciclo quase prazeroso de auto-destruição constante não é tentador. André, meu doce André. Em teus devaneios de criança com a vontade inexorável de ganhar o mundo eu me identifico e contigo me compadeço. E agradeço por ter a sorte de voltar ao Lar. Assim como você voltou, mesmo que no mundo mágico de uma ficção.