Cada uma das etapas da vida é complicada, e às vezes me pego pensando que a única forma de me acalmar frente a tantos infortúnios é me agarrar ao pensamento da existência de algumas certezas fixas. Isso, claro, antes de me deparar com o quanto eu sou estúpida ao me apegar a tais verdades inabaláveis. Pensamentos tais como, por exemplo, a inevitabilidade da morte, a existência do sol e do vento, a minha impotência e insignificância frente coisas tão aparentemente pequenas e de natureza tão simples e inútil como uma pedra, ou mesmo a angústia que qualquer ser humano é fadado a sentir, uma vez que existe.
Após me defrontar com minha estupidez, tento relativizá-la. Às vezes obtenho êxito, outras tantas não. De que me adianta pensar que tudo vai acabar, que a morte vem justamente trazer um descanso qualquer dia desses, se a dor não cessa? Enfim, eu não tenho resposta pra quase nada, e sempre parece que temos que ter. Uma pressão descabida, impossível não tentar ceder. Pois bem, as respostas todas, não as tenho.
Volto hoje a esse espaço que foi abandonado por mim há quase dez meses, e não sei exatamente porque retorno. Talvez, seja por uma necessidade de autoanálise. Caio em armadilhas densas e complexas em mim mesma por me analisar demais, analisar tudo a minha volta, querer entender.
É justamente por não mais querer ceder a uma ideia fixa de busca por uma perfeição que não tenho pretensão nenhuma de escrever algo com qualquer valor literário considerável aqui. Talvez dê de antemão esse aviso por medo de não ser capaz jamais de escrever algo que preste.
Passei quase um ano tomada por uma doença que eu mesma criei. Não de forma consciente, certamente, mas é indubitável que eu tinha um retorno indireto e importante enquanto atentava contra mim mesma, senão esse ciclo não continuaria por algum tempo, ou nem sequer teria se formado na minha cabeça a possibilidade de que ele se iniciasse. O interessante, no entanto, é tudo o que me motivou a perceber um pouco disso, e a ir atrás de me curar. Tudo na minha vida acontece de forma rápida e intensa demais, e foi assim também que ocorreu com as questões que criei com a alimentação e minha imagem corporal. Cheguei a fundos de poços, para logo depois, amparada em quem de melhor eu poderia ter tido ao meu lado, e tirando disso o máximo de proveito positivo, de motivação real, sair como quem vai da água para o vinho. Isso tudo, claro, apenas aparentemente. Paguei um preço caro - e não consigo fugir a essa lógica ancestral de pagar pelos meus pecados - e as consequências a curto e longo prazo me levaram a um quadro de ansiedade, angústia e temores terríveis com os quais tive que aprender a amenizá-los e conviver pacificamente . Aprender a viver de novo, a renascer simbolicamente: tudo que eu fazia me parecia novo e excessivamente estimulante, tal como uma criança. Também assim como uma pessoa em seus primeiros anos de vida, me assustei, me desesperei mas, sem seguir num outro sentido uma lógica infantil, consegui manter uma posição séria e não recorrer a subterfúgios. Consegui ficar ao lado de quem me ama tentando ao máximo ter o cuidado de não sobrecarregar com meu sofrimento, mesmo que isso talvez tenha acontecido, vez ou outra. Consegui me reerguer e daí saiu um amor sem precedentes na minha história. Sobre ele, no entanto, pretendo falar em outro post, se é que vou conseguir continuar com esse blog, (já me sinto estúpida com cada palavra que coloquei aqui).
Com o intuito único de talvez dar um retorno a qualquer pessoa que tenha lido esse blog durante os últimos posts, eu digo que, com relação às patologias de que fui vítima e principal causadora também, me sinto recuperada completamente. Não obstante, gostaria de dizer que o que vem depois é muito pior. Mas, como "não há mal que sempre dure nem dor que nunca acabe", também esse pós-obsessão com comida, o período posterior a esse sintoma criado como fuga de uma angústia mais obscura (isso que me recuso a chamar de Transtorno Alimentar, da forma como é colocado e fetichizado tanto por aí afora), também passa, mas que seja então sua duração a menor possível. Ainda não sei se o que tive foi exatamente por conta da retirada brusca de comportamentos autodestrutivos, mas tenho minhas fortes suspeitas.
Se pudesse dar um conselho e se alguém quisesse ouvi-lo, eu diria isso: o pior ainda está por vir. Então, deixe que venha e encontre suas motivações reais pra não voltar àquilo tudo que te significava de uma forma tão forte. Forte e estúpida, provavelmente depois você irá constatar.
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