Preciso de um papel branco e simples, é disso que preciso.
Encontrei, assim como achei também essa lapiseira perdida, do nada. Prometi a mim mesma que iria respeitar o que penso e escrever exatamente isso aqui. Espero que tenha conseguido.
Hoje, dia 29, quarta-feira e dia de jogo, montei no improviso uma coreografia,na sala ampla, para uma música que há muito tempo me assombrava: "Ainda é Cedo", do Legião.
Desde pequena tenho dois "musos", de forma quase inconsciente: Milton Nascimento e Renato Russo.
Ao colocar a música em volume alto, vestida com minha saia florida até os pés e o colar longo, improvisei de forma instintiva uma coreografia contemporânea inspirada na Pina Bausch.
Me encontrei com o chão, com minhas origens e meus medos. Desci, levantei. Explorei cada canto da sala branca com movimentos fluidos. Foi um momento tão único que desejei que tivesse sido filmado.
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| Pina Bausch traduzindo em movimentos seus sentimentos. |
Da Arte Flamenca, de sua dança tão complexa (a maior de todas), sinto tremendas saudades. O La Fragua, ambiente em que encontrava diálogo com meus anseios fechou por tempo indeterminado porque andava na contramão do mercado. Enquanto isso, algumas porcarias comerciais pseudo-artísticas se mantêm firme e proliferam por BH. Cresce minha desilusão na humanidade.
De pés descalços me encontro em contato íntimo com o que sinto como meu. Partilhar do cultivo da terra é meu prazer mais primário e ao mesmo tempo o mais sofisticado. Sou privilegiada por tocar a terra e recolher os frutos, reais; faço parte dessa luta e pretendo continuar.
Um amigo uma vez me disse que a Dança fazia, claramente, parte de mim.
Durante aqueles dias em que pude amenizar meus exageros, o Paulo me pediu, com tanto carinho, que se fosse optar, que fosse pela Dança. Por não ter seguido seus conselhos, meu amigo, peço desculpas e homenageio sua intenção carinhosa a cada vez que bailo, interna ou externamente. A melhor saída para o desespero inefável de existir.
"In vino veritas", me lembrou em outro momento outro Paulo. Pois bem, tentei transcrever um pouco da verdade que senti nesse momento rico e fecundo, em que brinquei de preparar para mim mesma um engenhoso drink feito com a minha querida vodca. Depois de dançar, fui tomada do ímpeto de colocar no papel algum resultado apressado em palavras.
Sou uma jovem mulher absurdamente saudável. Em meu aprendizado, cada vez tenho mais contato com desgraças humanas, políticas pútridas, barbáries e utopias que se contradizem e se completam de uma forma estranha. Do meu corpo saudável, relativamente tão bem condicionado e tonificado, de uma inteligência tolerante e bem disposta, o que posso tirar de proveitoso, de resoluções com alguma funcionalidade? A melancolia, tal como descrita pelos antigos no termo grego da acedia, me toma por completo quando penso nos empecilhos grosseiros a realização de uma mudança real de humanidade. Quando sinto dessa forma, acho que sou meio tola. Mais tolo, no entanto, é quem nunca se sentiu angustiado com os limites da humanidade.
Já lidei com muitos tipos de gente. Dos dissimulados narcisistas, aos indiferentes imediatistas.
Não me compreendo. Há momentos em que amo, me golpeio e posso questionar se amo. O puro me toca, e eu me encarrego de repelir sua grandeza.
Não sei o que dizer, a incerteza é minha realidade, tenho medos. Preciso viajar. Juntar dinheiro.
...
E que se mandem pras cucuias os cínicos! Prefiro a confusão dos sentidos colocada em pratos rasos.
Preciso ir, meu corpo me impele a minha própria solidão.
Feliz dia 29 ao coração.
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| Foto: homenagem de Wim Wenders a Pina Bausch. |





