30 de agosto de 2012

Dancem, dancem ou então estamos perdidos.

Preciso de um papel branco e simples, é disso que preciso.
Encontrei, assim como achei também essa lapiseira perdida, do nada. Prometi a mim mesma que iria respeitar o que penso e escrever exatamente isso aqui. Espero que tenha conseguido.
Hoje, dia 29, quarta-feira e dia de jogo, montei no improviso uma coreografia,na sala ampla, para uma música que há muito tempo me assombrava: "Ainda é Cedo", do Legião.

Desde pequena tenho dois "musos", de forma quase inconsciente: Milton Nascimento e Renato Russo.
Ao colocar a música em volume alto, vestida com minha saia florida até os pés e o colar longo, improvisei de forma instintiva uma coreografia contemporânea inspirada na Pina Bausch.
Me encontrei com o chão, com minhas origens e meus medos. Desci, levantei. Explorei cada canto da sala branca com movimentos fluidos. Foi um momento tão único que desejei que tivesse sido filmado.
Pina Bausch traduzindo em movimentos seus sentimentos.
Seguindo a tradição da Pina de usar um obstáculo natural na cena, dessa vez o obstáculo era meu próprio corpo. Eram justamente meus próprios movimentos que me dificultavam a passagem, a fluidez do espírito. Quando ia, minha perna me puxava para trás. Ao descer, meu corpo em tal ímpeto febril me exigia retorno a base. 
Da Arte Flamenca, de sua dança tão complexa (a maior de todas), sinto tremendas saudades. O La Fragua, ambiente em que encontrava diálogo com meus anseios fechou por tempo indeterminado porque andava na contramão do mercado. Enquanto isso, algumas porcarias comerciais pseudo-artísticas se mantêm firme e proliferam por BH. Cresce minha desilusão na humanidade.
De pés descalços me encontro em contato íntimo com o que sinto como meu. Partilhar do cultivo da terra é meu prazer mais primário e ao mesmo tempo o mais sofisticado. Sou privilegiada por tocar a terra e recolher os frutos, reais; faço parte dessa luta e pretendo continuar.

Um amigo uma vez me disse que a Dança fazia, claramente, parte de mim. 
Durante aqueles dias em que pude amenizar meus exageros, o Paulo me pediu, com tanto carinho, que se fosse optar, que fosse pela Dança. Por não ter seguido seus conselhos, meu amigo, peço desculpas e homenageio sua intenção carinhosa a cada vez que bailo, interna ou externamente. A melhor saída para o desespero inefável de existir. 
"In vino veritas", me lembrou em outro momento outro Paulo. Pois bem, tentei transcrever um pouco da verdade que senti nesse momento rico e fecundo, em que brinquei de preparar para mim mesma um engenhoso drink feito com a minha querida vodca. Depois de dançar, fui tomada do ímpeto de colocar no papel algum resultado apressado em palavras.
Sou uma jovem mulher absurdamente saudável. Em meu aprendizado, cada vez tenho mais contato com desgraças humanas, políticas pútridas, barbáries e utopias que se contradizem e se completam de uma forma estranha. Do meu corpo saudável, relativamente tão bem condicionado e tonificado, de uma inteligência tolerante e bem disposta, o que posso tirar de proveitoso, de resoluções com alguma funcionalidade? A melancolia, tal como descrita pelos antigos no termo grego da acedia, me toma por completo quando penso nos empecilhos grosseiros a realização de uma mudança real de humanidade. Quando sinto dessa forma, acho que sou meio tola. Mais tolo, no entanto, é quem nunca se sentiu angustiado com os limites da humanidade.

Já lidei com muitos tipos de gente. Dos dissimulados narcisistas, aos indiferentes imediatistas.
Não me compreendo. Há momentos em que amo, me golpeio e posso questionar se amo. O puro me toca, e eu me encarrego de repelir sua grandeza.
Não sei o que dizer, a incerteza é minha realidade, tenho medos. Preciso viajar. Juntar dinheiro.
...
E que se mandem pras cucuias os cínicos! Prefiro a confusão dos sentidos colocada em pratos rasos.
Preciso ir, meu corpo me impele a minha própria solidão.
Feliz dia 29 ao coração.


Foto: homenagem de Wim Wenders a Pina Bausch.

P.S.: uma lembrança carinhosa ao Lucas Fukuê, que com sua simplicidade me inspira a escrever.

15 de agosto de 2012

 











Morfeu, me leva contigo para um descanso que me traga alguma trégua. Me entrego em seus braços e te peço só isso. Me entrego a essa fantasia tantas vezes, mas não cedo ao meu cansaço, há coisas demais. Em meus sonhos, encontro prazeres inimagináveis na minha existência hostilizada e impaciente.

[Escrevo em vermelho justamente para deixar clara a urgência e a visceralidade desse meu apelo.]

                        A vida pede paciência.

O meu desespero é ridículo. Em matéria de me desesperar, me defronto com uma parte de mim mesma que não conhecia; não respondo como a maioria das pessoas a situações desesperadoras.

Venho até aqui, posto aquele texto que já tinha escrito e de que, de forma sistemática, não queria me desfazer sem antes colocá-lo no blog. Uma vez que isso foi feito, é um texto morto para mim. 

 
 Passo horas do dia parada em frente ao nada, olhando de forma perdida justamente para esse nada, que parece escorrer em frente aos meus olhos, então eu perco de vista o que nem sabia que olhava. Sentada na sarjeta, o vento não cansa de me agitar os cabelos de forma raivosa, levantando uma poeira que vem da casa em que outras pessoas compartilham de uma existência miserável. Os velhos com seus lamentos e suas cataratas também sentados nos alpendres. Essa poeria me gruda nos olhos, que os fecho, já desejava isso há quase uma hora. Assim que cerro meus olhos, não quero mais abrir. Tantas e tantas vezes já quis perder os sentidos. Vou a um canto, tapo meus ouvidos, aperto minhas pálpebras. Tudo me estimula de forma assustadora, eu quero gritar, mas isso me foi vetado por razões óbvias. Repentinamente, meu coração acelera, minha cabeça se revolta, convulsionando-se num movimento rápido, e escancaro meus olhos. Tenho a resolução lúcida de que tenho que seguir com tudo, o sol gordo e indiferente que me acompanha em cada passo nessa cidade poeirenta e preguiçosa me faz lembrar disso quando esquenta minhas mãos que tinham tornado-se geladas.

Disfarço minha desintegração. Disfarço o quanto me sinto cindida, fundida, faltante. Acho que assim a dor diminui, mas às vezes me engano. A confusão mental do fervilhamento constante dos meus pensamentos me condena a aguentá-los, tropegamente. Quando, então, em um momento qualquer do meu processo de luto, o cachorro do Allison tenta me cheirar e eu me assusto, pensando que ele fosse me morder, me sinto ameaçada sem razão real, saio correndo, balbucio de susto, e cedo ao choro, às saudades, ao palpitar acelerado inevitável de cada célula do meu corpo. É claro que a reação é desproporcional ao estímulo de um cachorro amigável. Mas não é isso que me corroeu. Choro e torno a olhar o nada. 

Confusa, fundida, pensando em encontrar sempre, cada vez com mais afinco, respostas que eu não tenho. Imaginando a realidade de outra pessoa, me vejo culpada aterrorizada , negando meu sofrimento, tendo resoluções das quais me arrependo ou desisto segundos depois.

Para sobreviver, me mantenho de forma ascética. Como o que deve ser comido, de forma higiênica e controlada. A qualquer indício de que planejo não comer, por ausência de apetite, pego o alimento e o coloco na boca, pouco a pouco. Vou a academia e faço meus exercícios calculados de forma eficaz, concentrada, séria e metódica. Corro como quem quer se livrar de um terror, ou como quem busca respostas para uma falha estrutural, para seus próprios erros e dificuldades, coisa que não vai encontrar dessa forma, como havia de ser esperado. Não olho pra nada, ninguém. Minha aparência é tão tristemente desgastada, séria e solitária, talvez hostil, que até as pessoas que me cumprimentam de longe não o fazem mais. Também lá recorro a meu recurso estranho: vou pra fora, tomar ar puro, e meu coração salta mais do que com o exercício. Quando volto pro lado de dentro, realizo tudo de uma forma tão forçosamente inconsciente de seu próprio desespero, que meus músculos pedem arrego. Estalam de forma desesperada quanto mais peso eu coloco, tremem e cedem à estafa inevitável de quem exagera, e há momentos em que sonho romper um tendão, ou coisa do tipo, ter uma dor física insuportável, como se não bastasse a.

Optei por tentar realizar as coisas dessa forma ascética, com a esperança de que assim eu consiga esperar. Tinha a esperança de assim não chorar, não desesperar, mas constatei que isso é impossível. Uma hora ou outra, sucumbo. 

A perda me dói, insuportavelmente. A consciência dos erros, a impotência, a imaturidade, a saudade. A incapacidade de encontrar resposta, a culpa. 

Sempre me lembrei da frase de uma música do João Bosco: "se as coisas nos reduzem simplesmente ao nada, do nada simplesmente temos que partir". É verdade, pelo que parece. Mas como. O que desejam de mim? 

O vento bate de forma insistente e impiedosa no vidro da sacada, com seu assobio macio e constante me avisa de alguma coisa a que não tenho acesso. Na minha aprendizagem, consegui reconhecer algumas constelações, e isso em deixa feliz. Me seguro em coisas pequenas, como o lamento choroso de uma senhora saudosista, que me confidencia lamúrias para as quais eu nada posso fazer. As nuvens, estáticas durante o dia, continuam sua existência, indiferentes.

A insegurança de tudo, meu medo de as aulas começarem, como vou ser recebida, haveria como saberem das minhas falhas (?), onde vou morar, vou ser bem-vinda na minha casa temporária, a matrícula que não tem data, a dor do meu estômago que me esmaga a alma, o cheiro da pessoa amada em cada coisa, a opção por não se desfazer de nada, a certeza de um carinho e a consciência das impossibilidades, a vontade de vomitar tudo isso bem no pé do jardim de ipês amarelos e dizer: "toma pra você, natureza infeliz". Eu poderia fazer pouco caso da natureza, a grandeza dela é incontestável. Fazer isso só mesmo por despeito infantil.

A possibilidade de tudo melhorar, o tempo que não passa para que isso aconteça, a, o, as, os, 

O Veeeeeeentoooooooo

                      que bate
               
                            como os meus pensamentos na minha cabeça.


(ouvi essa música depois de muito tempo sem ouvir nada. Como não sei colocar vídeo aqui, vou colocar só o link, que faz parte do post)

http://www.youtube.com/watch?v=sXmWAOIWg3w
 
                   Resposta inútil ao que ninguém perguntou

Cada uma das etapas da vida é complicada, e às vezes me pego pensando que a única forma de me acalmar frente a tantos infortúnios é me agarrar ao pensamento da existência de algumas certezas fixas. Isso, claro, antes de me deparar com o quanto eu sou estúpida ao me apegar a tais verdades inabaláveis. Pensamentos tais como, por exemplo, a inevitabilidade da morte, a existência do sol e do vento, a minha impotência e insignificância frente coisas tão aparentemente pequenas e de natureza tão simples e inútil como uma pedra, ou mesmo a angústia que qualquer ser humano é fadado a sentir, uma vez que existe.
Após me defrontar com minha estupidez, tento relativizá-la. Às vezes obtenho êxito, outras tantas não. De que me adianta pensar que tudo vai acabar, que a morte vem justamente trazer um descanso qualquer dia desses, se a dor não cessa? Enfim, eu não tenho resposta pra quase nada, e sempre parece que temos que ter. Uma pressão descabida, impossível não tentar ceder. Pois bem, as respostas todas, não as tenho.

Volto hoje a esse espaço que foi abandonado por mim há quase dez meses, e não sei exatamente porque retorno. Talvez, seja por uma necessidade de autoanálise. Caio em armadilhas densas e complexas em mim mesma por me analisar demais, analisar tudo a minha volta, querer entender. 
É justamente por não mais querer ceder a uma ideia fixa de busca por uma perfeição que não tenho pretensão nenhuma de escrever algo com qualquer valor literário considerável aqui. Talvez dê de antemão esse aviso por medo de não ser capaz jamais de escrever algo que preste.

Passei quase um ano tomada por uma doença que eu mesma criei. Não de forma consciente, certamente, mas é indubitável que eu tinha um retorno indireto e importante enquanto atentava contra mim mesma, senão esse ciclo não continuaria por algum tempo, ou nem sequer teria se formado na minha cabeça a possibilidade de que ele se iniciasse. O interessante, no entanto, é tudo o que me motivou a perceber um pouco disso, e a ir atrás de me curar. Tudo na minha vida acontece de forma rápida e intensa demais, e foi assim também que ocorreu com as questões que criei com a alimentação e minha imagem corporal. Cheguei a fundos de poços, para logo depois, amparada em quem de melhor eu poderia ter tido ao meu lado, e tirando disso o máximo de proveito positivo, de motivação real, sair como quem vai da água para o vinho. Isso tudo, claro, apenas aparentemente. Paguei um preço caro - e não consigo fugir a essa lógica ancestral de pagar pelos meus pecados - e as consequências a curto e longo prazo me levaram a um quadro de ansiedade, angústia e temores terríveis com os quais tive que aprender a amenizá-los e conviver pacificamente . Aprender a viver de novo, a renascer simbolicamente: tudo que eu fazia me parecia novo e excessivamente estimulante, tal como uma criança. Também assim como uma pessoa em seus primeiros anos de vida, me assustei, me desesperei mas, sem seguir num outro sentido uma lógica infantil, consegui manter uma posição séria e não recorrer a subterfúgios. Consegui ficar ao lado de quem me ama tentando ao máximo ter o cuidado de não sobrecarregar com meu sofrimento, mesmo que isso talvez tenha acontecido, vez ou outra. Consegui me reerguer e daí saiu um amor sem precedentes na minha história. Sobre ele, no entanto, pretendo falar em outro post, se é que vou conseguir continuar com esse blog, (já me sinto estúpida com cada palavra que coloquei aqui).

Com o intuito único de talvez dar um retorno a qualquer pessoa que tenha lido esse blog durante os últimos posts, eu digo que, com relação às patologias de que fui vítima e principal causadora também, me sinto recuperada completamente. Não obstante, gostaria de dizer que o que vem depois é muito pior. Mas, como "não há mal que sempre dure nem dor que nunca acabe", também esse pós-obsessão com comida, o período posterior a esse sintoma criado como fuga de uma angústia mais obscura (isso que me recuso a chamar de Transtorno Alimentar, da forma como é colocado e fetichizado tanto por aí afora), também passa, mas que seja então sua duração a menor possível. Ainda não sei se o que tive foi exatamente por conta da retirada brusca de comportamentos autodestrutivos, mas tenho minhas fortes suspeitas.

Se pudesse dar um conselho e se alguém quisesse ouvi-lo, eu diria isso: o pior ainda está por vir. Então, deixe que venha e encontre suas motivações reais pra não voltar àquilo tudo que te significava de uma forma tão forte. Forte e estúpida, provavelmente depois você irá constatar.