24 de setembro de 2012

Como me dói a saudade que sinto! O que fazer com essa sensação de aprisionamento, de quase total sufocação nessa selva cinza e pútrida de concreto? 

Estavam conversando na mesa sobre a existência ou inexistência de Deus, e como fazer para provar alguma tese a esse respeito. Ao pensar que nesse quesito não sinto nada, eu disse:

-Eu me acostumei com a ausência de Deus. Para mim, procurá-lo ou falar com ele me parece tão antinatural, que acabo desistindo.
(risadas)
- Alice, desse jeito que você fala, parece até que você terminou com Deus.
-Pode ser que sim.

Me faz falta, muito. Pudera eu me reencontrar novamente com Deus, ficaria tremendamente feliz. Eu conheci tudo que há de mais divino nesse mundo, com ou sem a existência de Deus. Nesse momento, no entanto, estou fechada fisicamente de uma forma tal que me fecho um tanto também em minha subjetividade. Encurralada em um escritório em meio a prédios pelos quatro cantos, vivo em uma cama jogada no nada, as malas cheias de roupas, adereços e lembranças maravilhosas nunca desfeitas. Não há lugar nem para elas, nem para mim. Fora desse escritório, a hostilidade me oprime tal como um pedestre apressado oprime um rato na calçada. Não encontro descanso nesse lugar, me vejo aterrorizada, tentando desesperadamente me prender a tudo o que sei que tenho lá naquele lugar que sinto como meu, me prendo às minhas lembranças, me agarro ao que sinto ter indiretamente para sobreviver, para não enlouquecer. Minha presença é indesejada, sinto dores de cabeça constantes, acho que nunca vou conseguir fazer com que alguém goste de mim de verdade, me enxergue de alguma forma.

No lugar em que eu vivia, era acompanhada pela lua em toda sua exuberância pelas longas caminhadas ao ar livre à noite, à hora que eu desejasse. Aqui, não consegui ver o céu à noite nenhuma vez sequer.
No lugar em que vivia de forma plena, adormecia ao som dos grilos, ao longe, o cheiro de terra e poeira, o radinho do porteiro em volume baixinho, o apito do trem tão distante, no meio da noite. Dormia de janela aberta, banhada pela luz da lua, que eu ficava observando até cair no sono. Aqui, um carro bate na lata de lixo bem embaixo da minha janela, gritos de raiva ou de baderna e pessoas bêbadas se divertindo "como se não houvesse amanhã" são meus ruídos noturnos ao pé do ouvido.
Naquele lugar em que eu vivia, eu circulava pela casa de forma tranquila, atenta apenas para não fazer muito ruído e acordar meu pai, que dormia um sono tranquilo, que podia ser acompanhado no ritmo do seu ronco alto, longo, compassado. Onde me meti não me sinto apta a fazer o percurso até o banheiro em qualquer hora do dia. Fico fora de casa o dia inteiro por puro medo de existir.

Escrevo essas palavras por sentir um terror imensurável e quase incontrolável. Quase. Porque eu não pretendo sucumbir, essa história é figurinha carimbada e eu não consigo mais repetir. Para realizar tal façanha, me mantenho firme nas minhas lembranças lindas. No que sei que tive outrora, e que faz parte tão importante do que sou. Me atenho ao que sei que sou, ao que me pertence lá, naquele lugar, lá, com aquelas pessoas, lá, onde eu não vivo mais. 
Me apego ao que consigo perceber como real pelos meus sentidos já tão fatigados. Sinto como se tivesse uma idade muito maior que a minha, um peso que carrego nas costas de forma consciente, que me constitui de formas tão variadas. 

Ai, que eu vou morrer de saudades, ou de tristeza!

 


9 de setembro de 2012

Me sinto tão estranha, tão terrivelmente ausente de mim mesma. Eu não sei o que fazer, é como se eu estivesse em um jogo de xadrez em que todas as jogadas tivessem sido analisadas, e todas levariam a um xeque-mate derradeiro contra mim. Mesmo assim, nessa partida eu não iria querer entregar o jogo, e enrolaria o fim indo tomar café.


NÃO.

Na verdade, o que eu sinto é uma esmagadora vontade de nem sequer jogar. Quando convidada para uma partida,  provavelmente o que eu faria seria negar categoricamente. Apertar amistosamente a mão do oponente, e dizer que, se eu jogasse, perderia. Então, muito obrigada.

Foto da Brooke Shaden. Ideia emprestada do blog "Leben...Liebe".

Lacan escreveu que na depressão há sempre algo de uma covardia. Pois bem, sem querer entrar em méritos de definições do que seria um processo depressivo e suas manifestações, o que vejo em mim é uma grande sensação de não querer enfrentar um embate que se coloca a minha frente de forma irreversível. Para fugir dele, no entanto, eu teria de lançar mão de recursos obscuros, terríveis e incompreensíveis à primeira vista e a olhares alheios (aos meus também, nesse últimos tempos). Recursos esses que me nego categoricamente a recorrer, ainda que sejam eles que me causaram um alívio tão grande, mas ao mesmo tempo tão efêmero e estúpido por tantas outras vezes.

Eu sinto vontade de gritar, berrar, colocar os pulmões com toda força para fora do meu corpo, vomitar de alguma forma uma coisa pútrida e malcheirosa que existe dentro de mim. Ao invés disso, permaneço calada e passiva, como se minha vida passasse em frente aos meus olhos, e eu não pudesse fazer nada para modificá-la ou obter algum prazer com o que acontece. Eu perdi a vergonha, ao mesmo tempo que ganhei covardia. Para conseguir me livrar do lugar ou das pessoas que me parecem aversivas (sem nenhum motivo aparente ou real), não titubeio em pedir para ir embora, e me preocupo muito pouco em dar uma razão plausível para isso. Não é que eu tenha que ir embora por algum compromisso na manhã seguinte. Eu preciso, eu quero, eu necessito desesperadamente ir embora, entende? Não? Tudo bem, mas é isso mesmo.

Na minha vida eu sempre fui embora. Saí fugida de tantos lugares, sempre em busca de algo que nem eu mesma sabia o que era. Eu sou absolutamente sozinha, me sinto vazia, esvaziada de tal forma que sinto uma vontade latente, lasciva e imprevisível de arrancar cada centímetro da minha pele odiosa, me ver em carne viva, e sentir o ardor insuportável que essa sensação causaria. Me sentir verdadeira e finalmente inteira nua, e ao mesmo tempo da forma mais vulnerável que eu jamais poderia me encontrar.

Fantasias à parte, não sei como é me machucar mais. Pelo menos, não fisicamente. Os momentos passados tão dolorosos e impulsivos ficaram marcados na carne em cicatrizes claras de alto relevo, já esbranquiçadas pelo tempo, e assumidas até mesmo com alguma naturalidade. Como eu desejo que aqueles tempos fiquem assim ressecados e impossibilitados de virem à tona pelo simples passar dos anos! Uma nova primavera está para iniciar, mas minha terra está seca. É um momento infecundo e ressecado, ressentido, culpado, magoado e de lágrimas secadas à força. 

Enquanto fantasio um ambiente tão longe daqui em que terei de viver daqui a pouco tempo de forma definitiva, me vem à boca um gosto amargo, meu estômago queima, meu corpo transpirou em febre nos últimos dias. Tenho medo, receio da hostilidade, certamente um medo desproporcional, é verdade, mas não interrompe o sentimento de hostilidade que eu criei em volta da cidade em que vou morar. Tantas experiências, tanto tempo, tantos momentos diferentes. É como se meus fantasmas estivessem sempre à espreita, como policiais à paisana escondidos em ruelas escuras, prontos a saltar na minha frente e me render por algum motivo urgente de investigação. Fraca e amedrontada, fragilizada pelo susto e sentindo como se, de verdade, eu devesse alguma satisfação ancestral e ilógica, eu me renderia prontamente, entregando exatamente o que nem eu sei que tenho. Me leva, então, contanto que me traga de volta livre dos meus medos.


Jardim de inverno. Um pouco do nosso canto.

Nenhum desses sentimentos tem seu início remontando de uma época recente. Eu não poderia explicar, mas a estrutura deles é de uma natureza tão esférica e enigmática que me sufoca. Culpa, dívida, sentimentos de total vazio, dúvida, incapacidade, impossibilidade. Há momentos em que me sinto de tal forma encurralada pela simples existência de outra forma humana formulando frases dirigidas a mim, que não consigo conceber continuar ali de forma natural: minha garganta se fecha como se existisse ali entalada uma bola de gude, e meu corpo é tomado por um ímpeto de se retirar de forma oportuna e libertadora da posição em que se encontra.

Meus livros, que devorava avidamente há poucos dias, por ora já não me fazem o menor sentido. Parece que acabou o tesão, os sonhos, o vislumbre, as fantasias que me faziam divagar por horas como seria escrever sobre tudo aquilo, viver aquelas realidades, ou até mesmo poder estudá-las de forma sistemática, fazer um uso diferenciado daquele novo mundo com o passar dos anos, no curso que vou começar em pouco tempo.
Estão todos com a leitura estagnada. Cada um dos livros espera resignadamente com um marcador estático numa página específica, alheios ao meu aparente desinteresse. Se disser que não quero mais me interessar, que não tento voltar a me envolver, estaria mentindo. No entanto, não são poucas as vezes em que falho ao tentar sentir satisfação da forma como sentia antes, o que me leva a uma frustração e a um abandono covardes. Então, cesso de tentar.

Por mais fantasias que eu construa em torno dos meus medos ancestrais que coloco na existência dos meus fantasmas, nos outros, há espaço para alguns alívios. Alívios esses que duram até o exato momento em que me deparo com a realidade de novo, e me desespero.
Por mais que haja pressões com as quais eu não estou nem um pouco disposta a cooptar, tento me lembrar de que, além disso que dói, há também muito mais.

Eu vou embora daqui, é verdade, mas seria impossível que esse espaço não viesse comigo, deliciosamente aninhado em cada pequeno espaço de cada uma das minhas células e no meu espírito inteiro.

Talvez vocês todos saibam se divertir mais e melhor que eu. Saibam socializar-se de forma muito mais satisfatória, completa e excitante. Talvez vocês todos saibam mesmo como é se arrumar por horas para ir a uma festa, e ao chegar ao lugar cumprimentem a todos com muita naturalidade. Depois de várias cervejas, é verdade que vocês investem em uma possível noitada com final feliz: às vezes conseguem, beijam ou até mesmo levam pra casa a outra pessoa que desejaram tanto por horas. Caso não o consigam, vocês tem a inteligente resolução de que o problema estava na outra pessoa, e que não haveria de ter nada a ver com vocês, e semana que vem há outra festa. 

Talvez vocês saibam exatamente como eu deva agir para conquistar o carinho e admiração de cada um, como devo fazer, passo a passo.
Eu acho que sei de tudo isso. Em tantos outros momentos, procurei satisfazer o desejo dos outros, e assim também pensava que me satisfazia, é verdade. Assim também abri brechas pra me destruir, deixei de me respeitar, acho mesmo que não fui feita pra esse mundo de vocês.

Eu ando à cavalo por algumas horas em meio às plantações, enquanto canto canções de musicais antigos. Vez ou outra, a égua estranha minha falta de prática e testa a coragem da cavaleira: pula por alguns assustadores segundos, ameaça me derrubar, até que para e me abandona com meus músculos trêmulos e tensos de tanta força, com meu susto que me impede de aplicar qualquer tipo de represália. Passo a pensar em alguma estratégia.
Passo horas colhendo amoras embaixo do sol, minhas mãos vão se tangendo de roxo, assim como minha boca, conforme vou me deliciando com aquelas frutinhas divinas. A cada vez que estendo meus braços e espreguiço meu corpo inteiro em direção às centenas de acerolas vermelhas do pé carregado no início do inverno, sinto como se fosse a primeira vez que executo esse movimento. 
É um sentimento virgem, sereno, que me envolve o corpo e o pensamento, puro e inexperiente como se eu sempre fizesse as vezes de uma iniciante. Nunca se repete, e sempre se amplifica.

Corro pelo pomar em busca de uma galinha fujona, armo um cerco em torno do limoeiro, imagino uma estratégia para uma arapuca que possa capturá-la. Passo horas regando cuidadosamente os mais de 47 pés de eucalipto, enquanto posso observar o céu ir descansar vagarosamente, como se ateasse fogo nas nuvens. Vou e volto do pomar, carregando por um longo caminho um regador de 12 kg a cada vez. Não me canso, e não me permito nenhuma vez sequer realizar a tarefa de forma mal feita: para cada pé que fica sem água, em poucos dias a secura do inverno pode levá-lo a um padecimento total. Como precisamos da chuva!

É verdade que vocês sabem muito, e que o fato de eu não saber fazer como vocês me assusta.
Talvez, no entanto, vocês não saibam como eu me sinto quando estou aqui, quando permito me entregar a esse momentos fecundos, ricos e maravilhosos, mesmo que de prazo determinado, uma vez que terei de abandoná-los. Talvez vocês não saibam como é voltar para casa no domingo à noite, depois do pôr-do-sol, com a tez e as bochechas queimadas do sol, os fios do cabelo um pouco mais dourados, a pele branca colorida em vários pontos com o marrom avermelhado da terra. Os pulmões respirando tranquilamente, os olhos ainda com resquícios tão frescos da paisagem inigualável, a língua ainda com gosto do peixe que assamos e comemos em meio a conversas calorosas, amigáveis, um carinho tão visível mesmo quando silencioso.

 Tento pensar tudo isso como algo meu, parte integrante real do que eu sou. Sinto uma pressão sufocante que me aprisiona, sei que terei que mostrar como eu sou, mesmo sem saber exatamente o que seria isso. Eu preferiria não ser, se existisse essa possibilidade. 

Eu sinto saudades tão grandes, uma angústia terrível que é preenchida pelo meu vazio, quase como num mecanismo de defesa. Não há uma noite em que eu não me perca nos meus medos e lembranças e  mais uma pequena veia do meu olho se rompe ao ceder em um choro que eu tentei muito controlar. Eu sinto raiva, quando no dia seguinte vejo no espelho meu olho avermelhado pela pequena hemorragia de horas antes. Eu não quero me machucar. Não quero me deixar levar por sentimentos que me deterioram e me deixam tão tentada a desistir, a sucumbir ao que já conheço tão bem e não desejo, mas com que não deixo de flertar em alguns momentos.

Quero ser capaz de levar comigo o que eu sinto que é meu.

**Me deixa gritar, me deixa te abraçar... Depois de tanto tempo me mantendo tão serena, tudo o que eu queria mesmo era perder um pouco do controle, me permitir de tantas formas, abraçar o Mundo com um amor que eu sei que existe, escondido atrás dessa aparente indiferença. Meu coração acelera, inquieto.***

Vem comigo
No caminho
Eu te explico.


Eu e meu pai no campo de ipês-amarelos. Em meio a plantação de cana, natureza seca plantada para o progresso, dezenas desses ipês despontam alegremente, teimosos, conscientes de sua beleza.






30 de agosto de 2012

Dancem, dancem ou então estamos perdidos.

Preciso de um papel branco e simples, é disso que preciso.
Encontrei, assim como achei também essa lapiseira perdida, do nada. Prometi a mim mesma que iria respeitar o que penso e escrever exatamente isso aqui. Espero que tenha conseguido.
Hoje, dia 29, quarta-feira e dia de jogo, montei no improviso uma coreografia,na sala ampla, para uma música que há muito tempo me assombrava: "Ainda é Cedo", do Legião.

Desde pequena tenho dois "musos", de forma quase inconsciente: Milton Nascimento e Renato Russo.
Ao colocar a música em volume alto, vestida com minha saia florida até os pés e o colar longo, improvisei de forma instintiva uma coreografia contemporânea inspirada na Pina Bausch.
Me encontrei com o chão, com minhas origens e meus medos. Desci, levantei. Explorei cada canto da sala branca com movimentos fluidos. Foi um momento tão único que desejei que tivesse sido filmado.
Pina Bausch traduzindo em movimentos seus sentimentos.
Seguindo a tradição da Pina de usar um obstáculo natural na cena, dessa vez o obstáculo era meu próprio corpo. Eram justamente meus próprios movimentos que me dificultavam a passagem, a fluidez do espírito. Quando ia, minha perna me puxava para trás. Ao descer, meu corpo em tal ímpeto febril me exigia retorno a base. 
Da Arte Flamenca, de sua dança tão complexa (a maior de todas), sinto tremendas saudades. O La Fragua, ambiente em que encontrava diálogo com meus anseios fechou por tempo indeterminado porque andava na contramão do mercado. Enquanto isso, algumas porcarias comerciais pseudo-artísticas se mantêm firme e proliferam por BH. Cresce minha desilusão na humanidade.
De pés descalços me encontro em contato íntimo com o que sinto como meu. Partilhar do cultivo da terra é meu prazer mais primário e ao mesmo tempo o mais sofisticado. Sou privilegiada por tocar a terra e recolher os frutos, reais; faço parte dessa luta e pretendo continuar.

Um amigo uma vez me disse que a Dança fazia, claramente, parte de mim. 
Durante aqueles dias em que pude amenizar meus exageros, o Paulo me pediu, com tanto carinho, que se fosse optar, que fosse pela Dança. Por não ter seguido seus conselhos, meu amigo, peço desculpas e homenageio sua intenção carinhosa a cada vez que bailo, interna ou externamente. A melhor saída para o desespero inefável de existir. 
"In vino veritas", me lembrou em outro momento outro Paulo. Pois bem, tentei transcrever um pouco da verdade que senti nesse momento rico e fecundo, em que brinquei de preparar para mim mesma um engenhoso drink feito com a minha querida vodca. Depois de dançar, fui tomada do ímpeto de colocar no papel algum resultado apressado em palavras.
Sou uma jovem mulher absurdamente saudável. Em meu aprendizado, cada vez tenho mais contato com desgraças humanas, políticas pútridas, barbáries e utopias que se contradizem e se completam de uma forma estranha. Do meu corpo saudável, relativamente tão bem condicionado e tonificado, de uma inteligência tolerante e bem disposta, o que posso tirar de proveitoso, de resoluções com alguma funcionalidade? A melancolia, tal como descrita pelos antigos no termo grego da acedia, me toma por completo quando penso nos empecilhos grosseiros a realização de uma mudança real de humanidade. Quando sinto dessa forma, acho que sou meio tola. Mais tolo, no entanto, é quem nunca se sentiu angustiado com os limites da humanidade.

Já lidei com muitos tipos de gente. Dos dissimulados narcisistas, aos indiferentes imediatistas.
Não me compreendo. Há momentos em que amo, me golpeio e posso questionar se amo. O puro me toca, e eu me encarrego de repelir sua grandeza.
Não sei o que dizer, a incerteza é minha realidade, tenho medos. Preciso viajar. Juntar dinheiro.
...
E que se mandem pras cucuias os cínicos! Prefiro a confusão dos sentidos colocada em pratos rasos.
Preciso ir, meu corpo me impele a minha própria solidão.
Feliz dia 29 ao coração.


Foto: homenagem de Wim Wenders a Pina Bausch.

P.S.: uma lembrança carinhosa ao Lucas Fukuê, que com sua simplicidade me inspira a escrever.

15 de agosto de 2012

 











Morfeu, me leva contigo para um descanso que me traga alguma trégua. Me entrego em seus braços e te peço só isso. Me entrego a essa fantasia tantas vezes, mas não cedo ao meu cansaço, há coisas demais. Em meus sonhos, encontro prazeres inimagináveis na minha existência hostilizada e impaciente.

[Escrevo em vermelho justamente para deixar clara a urgência e a visceralidade desse meu apelo.]

                        A vida pede paciência.

O meu desespero é ridículo. Em matéria de me desesperar, me defronto com uma parte de mim mesma que não conhecia; não respondo como a maioria das pessoas a situações desesperadoras.

Venho até aqui, posto aquele texto que já tinha escrito e de que, de forma sistemática, não queria me desfazer sem antes colocá-lo no blog. Uma vez que isso foi feito, é um texto morto para mim. 

 
 Passo horas do dia parada em frente ao nada, olhando de forma perdida justamente para esse nada, que parece escorrer em frente aos meus olhos, então eu perco de vista o que nem sabia que olhava. Sentada na sarjeta, o vento não cansa de me agitar os cabelos de forma raivosa, levantando uma poeira que vem da casa em que outras pessoas compartilham de uma existência miserável. Os velhos com seus lamentos e suas cataratas também sentados nos alpendres. Essa poeria me gruda nos olhos, que os fecho, já desejava isso há quase uma hora. Assim que cerro meus olhos, não quero mais abrir. Tantas e tantas vezes já quis perder os sentidos. Vou a um canto, tapo meus ouvidos, aperto minhas pálpebras. Tudo me estimula de forma assustadora, eu quero gritar, mas isso me foi vetado por razões óbvias. Repentinamente, meu coração acelera, minha cabeça se revolta, convulsionando-se num movimento rápido, e escancaro meus olhos. Tenho a resolução lúcida de que tenho que seguir com tudo, o sol gordo e indiferente que me acompanha em cada passo nessa cidade poeirenta e preguiçosa me faz lembrar disso quando esquenta minhas mãos que tinham tornado-se geladas.

Disfarço minha desintegração. Disfarço o quanto me sinto cindida, fundida, faltante. Acho que assim a dor diminui, mas às vezes me engano. A confusão mental do fervilhamento constante dos meus pensamentos me condena a aguentá-los, tropegamente. Quando, então, em um momento qualquer do meu processo de luto, o cachorro do Allison tenta me cheirar e eu me assusto, pensando que ele fosse me morder, me sinto ameaçada sem razão real, saio correndo, balbucio de susto, e cedo ao choro, às saudades, ao palpitar acelerado inevitável de cada célula do meu corpo. É claro que a reação é desproporcional ao estímulo de um cachorro amigável. Mas não é isso que me corroeu. Choro e torno a olhar o nada. 

Confusa, fundida, pensando em encontrar sempre, cada vez com mais afinco, respostas que eu não tenho. Imaginando a realidade de outra pessoa, me vejo culpada aterrorizada , negando meu sofrimento, tendo resoluções das quais me arrependo ou desisto segundos depois.

Para sobreviver, me mantenho de forma ascética. Como o que deve ser comido, de forma higiênica e controlada. A qualquer indício de que planejo não comer, por ausência de apetite, pego o alimento e o coloco na boca, pouco a pouco. Vou a academia e faço meus exercícios calculados de forma eficaz, concentrada, séria e metódica. Corro como quem quer se livrar de um terror, ou como quem busca respostas para uma falha estrutural, para seus próprios erros e dificuldades, coisa que não vai encontrar dessa forma, como havia de ser esperado. Não olho pra nada, ninguém. Minha aparência é tão tristemente desgastada, séria e solitária, talvez hostil, que até as pessoas que me cumprimentam de longe não o fazem mais. Também lá recorro a meu recurso estranho: vou pra fora, tomar ar puro, e meu coração salta mais do que com o exercício. Quando volto pro lado de dentro, realizo tudo de uma forma tão forçosamente inconsciente de seu próprio desespero, que meus músculos pedem arrego. Estalam de forma desesperada quanto mais peso eu coloco, tremem e cedem à estafa inevitável de quem exagera, e há momentos em que sonho romper um tendão, ou coisa do tipo, ter uma dor física insuportável, como se não bastasse a.

Optei por tentar realizar as coisas dessa forma ascética, com a esperança de que assim eu consiga esperar. Tinha a esperança de assim não chorar, não desesperar, mas constatei que isso é impossível. Uma hora ou outra, sucumbo. 

A perda me dói, insuportavelmente. A consciência dos erros, a impotência, a imaturidade, a saudade. A incapacidade de encontrar resposta, a culpa. 

Sempre me lembrei da frase de uma música do João Bosco: "se as coisas nos reduzem simplesmente ao nada, do nada simplesmente temos que partir". É verdade, pelo que parece. Mas como. O que desejam de mim? 

O vento bate de forma insistente e impiedosa no vidro da sacada, com seu assobio macio e constante me avisa de alguma coisa a que não tenho acesso. Na minha aprendizagem, consegui reconhecer algumas constelações, e isso em deixa feliz. Me seguro em coisas pequenas, como o lamento choroso de uma senhora saudosista, que me confidencia lamúrias para as quais eu nada posso fazer. As nuvens, estáticas durante o dia, continuam sua existência, indiferentes.

A insegurança de tudo, meu medo de as aulas começarem, como vou ser recebida, haveria como saberem das minhas falhas (?), onde vou morar, vou ser bem-vinda na minha casa temporária, a matrícula que não tem data, a dor do meu estômago que me esmaga a alma, o cheiro da pessoa amada em cada coisa, a opção por não se desfazer de nada, a certeza de um carinho e a consciência das impossibilidades, a vontade de vomitar tudo isso bem no pé do jardim de ipês amarelos e dizer: "toma pra você, natureza infeliz". Eu poderia fazer pouco caso da natureza, a grandeza dela é incontestável. Fazer isso só mesmo por despeito infantil.

A possibilidade de tudo melhorar, o tempo que não passa para que isso aconteça, a, o, as, os, 

O Veeeeeeentoooooooo

                      que bate
               
                            como os meus pensamentos na minha cabeça.


(ouvi essa música depois de muito tempo sem ouvir nada. Como não sei colocar vídeo aqui, vou colocar só o link, que faz parte do post)

http://www.youtube.com/watch?v=sXmWAOIWg3w
 
                   Resposta inútil ao que ninguém perguntou

Cada uma das etapas da vida é complicada, e às vezes me pego pensando que a única forma de me acalmar frente a tantos infortúnios é me agarrar ao pensamento da existência de algumas certezas fixas. Isso, claro, antes de me deparar com o quanto eu sou estúpida ao me apegar a tais verdades inabaláveis. Pensamentos tais como, por exemplo, a inevitabilidade da morte, a existência do sol e do vento, a minha impotência e insignificância frente coisas tão aparentemente pequenas e de natureza tão simples e inútil como uma pedra, ou mesmo a angústia que qualquer ser humano é fadado a sentir, uma vez que existe.
Após me defrontar com minha estupidez, tento relativizá-la. Às vezes obtenho êxito, outras tantas não. De que me adianta pensar que tudo vai acabar, que a morte vem justamente trazer um descanso qualquer dia desses, se a dor não cessa? Enfim, eu não tenho resposta pra quase nada, e sempre parece que temos que ter. Uma pressão descabida, impossível não tentar ceder. Pois bem, as respostas todas, não as tenho.

Volto hoje a esse espaço que foi abandonado por mim há quase dez meses, e não sei exatamente porque retorno. Talvez, seja por uma necessidade de autoanálise. Caio em armadilhas densas e complexas em mim mesma por me analisar demais, analisar tudo a minha volta, querer entender. 
É justamente por não mais querer ceder a uma ideia fixa de busca por uma perfeição que não tenho pretensão nenhuma de escrever algo com qualquer valor literário considerável aqui. Talvez dê de antemão esse aviso por medo de não ser capaz jamais de escrever algo que preste.

Passei quase um ano tomada por uma doença que eu mesma criei. Não de forma consciente, certamente, mas é indubitável que eu tinha um retorno indireto e importante enquanto atentava contra mim mesma, senão esse ciclo não continuaria por algum tempo, ou nem sequer teria se formado na minha cabeça a possibilidade de que ele se iniciasse. O interessante, no entanto, é tudo o que me motivou a perceber um pouco disso, e a ir atrás de me curar. Tudo na minha vida acontece de forma rápida e intensa demais, e foi assim também que ocorreu com as questões que criei com a alimentação e minha imagem corporal. Cheguei a fundos de poços, para logo depois, amparada em quem de melhor eu poderia ter tido ao meu lado, e tirando disso o máximo de proveito positivo, de motivação real, sair como quem vai da água para o vinho. Isso tudo, claro, apenas aparentemente. Paguei um preço caro - e não consigo fugir a essa lógica ancestral de pagar pelos meus pecados - e as consequências a curto e longo prazo me levaram a um quadro de ansiedade, angústia e temores terríveis com os quais tive que aprender a amenizá-los e conviver pacificamente . Aprender a viver de novo, a renascer simbolicamente: tudo que eu fazia me parecia novo e excessivamente estimulante, tal como uma criança. Também assim como uma pessoa em seus primeiros anos de vida, me assustei, me desesperei mas, sem seguir num outro sentido uma lógica infantil, consegui manter uma posição séria e não recorrer a subterfúgios. Consegui ficar ao lado de quem me ama tentando ao máximo ter o cuidado de não sobrecarregar com meu sofrimento, mesmo que isso talvez tenha acontecido, vez ou outra. Consegui me reerguer e daí saiu um amor sem precedentes na minha história. Sobre ele, no entanto, pretendo falar em outro post, se é que vou conseguir continuar com esse blog, (já me sinto estúpida com cada palavra que coloquei aqui).

Com o intuito único de talvez dar um retorno a qualquer pessoa que tenha lido esse blog durante os últimos posts, eu digo que, com relação às patologias de que fui vítima e principal causadora também, me sinto recuperada completamente. Não obstante, gostaria de dizer que o que vem depois é muito pior. Mas, como "não há mal que sempre dure nem dor que nunca acabe", também esse pós-obsessão com comida, o período posterior a esse sintoma criado como fuga de uma angústia mais obscura (isso que me recuso a chamar de Transtorno Alimentar, da forma como é colocado e fetichizado tanto por aí afora), também passa, mas que seja então sua duração a menor possível. Ainda não sei se o que tive foi exatamente por conta da retirada brusca de comportamentos autodestrutivos, mas tenho minhas fortes suspeitas.

Se pudesse dar um conselho e se alguém quisesse ouvi-lo, eu diria isso: o pior ainda está por vir. Então, deixe que venha e encontre suas motivações reais pra não voltar àquilo tudo que te significava de uma forma tão forte. Forte e estúpida, provavelmente depois você irá constatar.