Estavam conversando na mesa sobre a existência ou inexistência de Deus, e como fazer para provar alguma tese a esse respeito. Ao pensar que nesse quesito não sinto nada, eu disse:
-Eu me acostumei com a ausência de Deus. Para mim, procurá-lo ou falar com ele me parece tão antinatural, que acabo desistindo.
(risadas)
- Alice, desse jeito que você fala, parece até que você terminou com Deus.
-Pode ser que sim.
Me faz falta, muito. Pudera eu me reencontrar novamente com Deus, ficaria tremendamente feliz. Eu conheci tudo que há de mais divino nesse mundo, com ou sem a existência de Deus. Nesse momento, no entanto, estou fechada fisicamente de uma forma tal que me fecho um tanto também em minha subjetividade. Encurralada em um escritório em meio a prédios pelos quatro cantos, vivo em uma cama jogada no nada, as malas cheias de roupas, adereços e lembranças maravilhosas nunca desfeitas. Não há lugar nem para elas, nem para mim. Fora desse escritório, a hostilidade me oprime tal como um pedestre apressado oprime um rato na calçada. Não encontro descanso nesse lugar, me vejo aterrorizada, tentando desesperadamente me prender a tudo o que sei que tenho lá naquele lugar que sinto como meu, me prendo às minhas lembranças, me agarro ao que sinto ter indiretamente para sobreviver, para não enlouquecer. Minha presença é indesejada, sinto dores de cabeça constantes, acho que nunca vou conseguir fazer com que alguém goste de mim de verdade, me enxergue de alguma forma.
No lugar em que eu vivia, era acompanhada pela lua em toda sua exuberância pelas longas caminhadas ao ar livre à noite, à hora que eu desejasse. Aqui, não consegui ver o céu à noite nenhuma vez sequer.
No lugar em que vivia de forma plena, adormecia ao som dos grilos, ao longe, o cheiro de terra e poeira, o radinho do porteiro em volume baixinho, o apito do trem tão distante, no meio da noite. Dormia de janela aberta, banhada pela luz da lua, que eu ficava observando até cair no sono. Aqui, um carro bate na lata de lixo bem embaixo da minha janela, gritos de raiva ou de baderna e pessoas bêbadas se divertindo "como se não houvesse amanhã" são meus ruídos noturnos ao pé do ouvido.
Naquele lugar em que eu vivia, eu circulava pela casa de forma tranquila, atenta apenas para não fazer muito ruído e acordar meu pai, que dormia um sono tranquilo, que podia ser acompanhado no ritmo do seu ronco alto, longo, compassado. Onde me meti não me sinto apta a fazer o percurso até o banheiro em qualquer hora do dia. Fico fora de casa o dia inteiro por puro medo de existir.
Escrevo essas palavras por sentir um terror imensurável e quase incontrolável. Quase. Porque eu não pretendo sucumbir, essa história é figurinha carimbada e eu não consigo mais repetir. Para realizar tal façanha, me mantenho firme nas minhas lembranças lindas. No que sei que tive outrora, e que faz parte tão importante do que sou. Me atenho ao que sei que sou, ao que me pertence lá, naquele lugar, lá, com aquelas pessoas, lá, onde eu não vivo mais.
Me apego ao que consigo perceber como real pelos meus sentidos já tão fatigados. Sinto como se tivesse uma idade muito maior que a minha, um peso que carrego nas costas de forma consciente, que me constitui de formas tão variadas.
Ai, que eu vou morrer de saudades, ou de tristeza!








