24 de setembro de 2012

Como me dói a saudade que sinto! O que fazer com essa sensação de aprisionamento, de quase total sufocação nessa selva cinza e pútrida de concreto? 

Estavam conversando na mesa sobre a existência ou inexistência de Deus, e como fazer para provar alguma tese a esse respeito. Ao pensar que nesse quesito não sinto nada, eu disse:

-Eu me acostumei com a ausência de Deus. Para mim, procurá-lo ou falar com ele me parece tão antinatural, que acabo desistindo.
(risadas)
- Alice, desse jeito que você fala, parece até que você terminou com Deus.
-Pode ser que sim.

Me faz falta, muito. Pudera eu me reencontrar novamente com Deus, ficaria tremendamente feliz. Eu conheci tudo que há de mais divino nesse mundo, com ou sem a existência de Deus. Nesse momento, no entanto, estou fechada fisicamente de uma forma tal que me fecho um tanto também em minha subjetividade. Encurralada em um escritório em meio a prédios pelos quatro cantos, vivo em uma cama jogada no nada, as malas cheias de roupas, adereços e lembranças maravilhosas nunca desfeitas. Não há lugar nem para elas, nem para mim. Fora desse escritório, a hostilidade me oprime tal como um pedestre apressado oprime um rato na calçada. Não encontro descanso nesse lugar, me vejo aterrorizada, tentando desesperadamente me prender a tudo o que sei que tenho lá naquele lugar que sinto como meu, me prendo às minhas lembranças, me agarro ao que sinto ter indiretamente para sobreviver, para não enlouquecer. Minha presença é indesejada, sinto dores de cabeça constantes, acho que nunca vou conseguir fazer com que alguém goste de mim de verdade, me enxergue de alguma forma.

No lugar em que eu vivia, era acompanhada pela lua em toda sua exuberância pelas longas caminhadas ao ar livre à noite, à hora que eu desejasse. Aqui, não consegui ver o céu à noite nenhuma vez sequer.
No lugar em que vivia de forma plena, adormecia ao som dos grilos, ao longe, o cheiro de terra e poeira, o radinho do porteiro em volume baixinho, o apito do trem tão distante, no meio da noite. Dormia de janela aberta, banhada pela luz da lua, que eu ficava observando até cair no sono. Aqui, um carro bate na lata de lixo bem embaixo da minha janela, gritos de raiva ou de baderna e pessoas bêbadas se divertindo "como se não houvesse amanhã" são meus ruídos noturnos ao pé do ouvido.
Naquele lugar em que eu vivia, eu circulava pela casa de forma tranquila, atenta apenas para não fazer muito ruído e acordar meu pai, que dormia um sono tranquilo, que podia ser acompanhado no ritmo do seu ronco alto, longo, compassado. Onde me meti não me sinto apta a fazer o percurso até o banheiro em qualquer hora do dia. Fico fora de casa o dia inteiro por puro medo de existir.

Escrevo essas palavras por sentir um terror imensurável e quase incontrolável. Quase. Porque eu não pretendo sucumbir, essa história é figurinha carimbada e eu não consigo mais repetir. Para realizar tal façanha, me mantenho firme nas minhas lembranças lindas. No que sei que tive outrora, e que faz parte tão importante do que sou. Me atenho ao que sei que sou, ao que me pertence lá, naquele lugar, lá, com aquelas pessoas, lá, onde eu não vivo mais. 
Me apego ao que consigo perceber como real pelos meus sentidos já tão fatigados. Sinto como se tivesse uma idade muito maior que a minha, um peso que carrego nas costas de forma consciente, que me constitui de formas tão variadas. 

Ai, que eu vou morrer de saudades, ou de tristeza!

 


9 de setembro de 2012

Me sinto tão estranha, tão terrivelmente ausente de mim mesma. Eu não sei o que fazer, é como se eu estivesse em um jogo de xadrez em que todas as jogadas tivessem sido analisadas, e todas levariam a um xeque-mate derradeiro contra mim. Mesmo assim, nessa partida eu não iria querer entregar o jogo, e enrolaria o fim indo tomar café.


NÃO.

Na verdade, o que eu sinto é uma esmagadora vontade de nem sequer jogar. Quando convidada para uma partida,  provavelmente o que eu faria seria negar categoricamente. Apertar amistosamente a mão do oponente, e dizer que, se eu jogasse, perderia. Então, muito obrigada.

Foto da Brooke Shaden. Ideia emprestada do blog "Leben...Liebe".

Lacan escreveu que na depressão há sempre algo de uma covardia. Pois bem, sem querer entrar em méritos de definições do que seria um processo depressivo e suas manifestações, o que vejo em mim é uma grande sensação de não querer enfrentar um embate que se coloca a minha frente de forma irreversível. Para fugir dele, no entanto, eu teria de lançar mão de recursos obscuros, terríveis e incompreensíveis à primeira vista e a olhares alheios (aos meus também, nesse últimos tempos). Recursos esses que me nego categoricamente a recorrer, ainda que sejam eles que me causaram um alívio tão grande, mas ao mesmo tempo tão efêmero e estúpido por tantas outras vezes.

Eu sinto vontade de gritar, berrar, colocar os pulmões com toda força para fora do meu corpo, vomitar de alguma forma uma coisa pútrida e malcheirosa que existe dentro de mim. Ao invés disso, permaneço calada e passiva, como se minha vida passasse em frente aos meus olhos, e eu não pudesse fazer nada para modificá-la ou obter algum prazer com o que acontece. Eu perdi a vergonha, ao mesmo tempo que ganhei covardia. Para conseguir me livrar do lugar ou das pessoas que me parecem aversivas (sem nenhum motivo aparente ou real), não titubeio em pedir para ir embora, e me preocupo muito pouco em dar uma razão plausível para isso. Não é que eu tenha que ir embora por algum compromisso na manhã seguinte. Eu preciso, eu quero, eu necessito desesperadamente ir embora, entende? Não? Tudo bem, mas é isso mesmo.

Na minha vida eu sempre fui embora. Saí fugida de tantos lugares, sempre em busca de algo que nem eu mesma sabia o que era. Eu sou absolutamente sozinha, me sinto vazia, esvaziada de tal forma que sinto uma vontade latente, lasciva e imprevisível de arrancar cada centímetro da minha pele odiosa, me ver em carne viva, e sentir o ardor insuportável que essa sensação causaria. Me sentir verdadeira e finalmente inteira nua, e ao mesmo tempo da forma mais vulnerável que eu jamais poderia me encontrar.

Fantasias à parte, não sei como é me machucar mais. Pelo menos, não fisicamente. Os momentos passados tão dolorosos e impulsivos ficaram marcados na carne em cicatrizes claras de alto relevo, já esbranquiçadas pelo tempo, e assumidas até mesmo com alguma naturalidade. Como eu desejo que aqueles tempos fiquem assim ressecados e impossibilitados de virem à tona pelo simples passar dos anos! Uma nova primavera está para iniciar, mas minha terra está seca. É um momento infecundo e ressecado, ressentido, culpado, magoado e de lágrimas secadas à força. 

Enquanto fantasio um ambiente tão longe daqui em que terei de viver daqui a pouco tempo de forma definitiva, me vem à boca um gosto amargo, meu estômago queima, meu corpo transpirou em febre nos últimos dias. Tenho medo, receio da hostilidade, certamente um medo desproporcional, é verdade, mas não interrompe o sentimento de hostilidade que eu criei em volta da cidade em que vou morar. Tantas experiências, tanto tempo, tantos momentos diferentes. É como se meus fantasmas estivessem sempre à espreita, como policiais à paisana escondidos em ruelas escuras, prontos a saltar na minha frente e me render por algum motivo urgente de investigação. Fraca e amedrontada, fragilizada pelo susto e sentindo como se, de verdade, eu devesse alguma satisfação ancestral e ilógica, eu me renderia prontamente, entregando exatamente o que nem eu sei que tenho. Me leva, então, contanto que me traga de volta livre dos meus medos.


Jardim de inverno. Um pouco do nosso canto.

Nenhum desses sentimentos tem seu início remontando de uma época recente. Eu não poderia explicar, mas a estrutura deles é de uma natureza tão esférica e enigmática que me sufoca. Culpa, dívida, sentimentos de total vazio, dúvida, incapacidade, impossibilidade. Há momentos em que me sinto de tal forma encurralada pela simples existência de outra forma humana formulando frases dirigidas a mim, que não consigo conceber continuar ali de forma natural: minha garganta se fecha como se existisse ali entalada uma bola de gude, e meu corpo é tomado por um ímpeto de se retirar de forma oportuna e libertadora da posição em que se encontra.

Meus livros, que devorava avidamente há poucos dias, por ora já não me fazem o menor sentido. Parece que acabou o tesão, os sonhos, o vislumbre, as fantasias que me faziam divagar por horas como seria escrever sobre tudo aquilo, viver aquelas realidades, ou até mesmo poder estudá-las de forma sistemática, fazer um uso diferenciado daquele novo mundo com o passar dos anos, no curso que vou começar em pouco tempo.
Estão todos com a leitura estagnada. Cada um dos livros espera resignadamente com um marcador estático numa página específica, alheios ao meu aparente desinteresse. Se disser que não quero mais me interessar, que não tento voltar a me envolver, estaria mentindo. No entanto, não são poucas as vezes em que falho ao tentar sentir satisfação da forma como sentia antes, o que me leva a uma frustração e a um abandono covardes. Então, cesso de tentar.

Por mais fantasias que eu construa em torno dos meus medos ancestrais que coloco na existência dos meus fantasmas, nos outros, há espaço para alguns alívios. Alívios esses que duram até o exato momento em que me deparo com a realidade de novo, e me desespero.
Por mais que haja pressões com as quais eu não estou nem um pouco disposta a cooptar, tento me lembrar de que, além disso que dói, há também muito mais.

Eu vou embora daqui, é verdade, mas seria impossível que esse espaço não viesse comigo, deliciosamente aninhado em cada pequeno espaço de cada uma das minhas células e no meu espírito inteiro.

Talvez vocês todos saibam se divertir mais e melhor que eu. Saibam socializar-se de forma muito mais satisfatória, completa e excitante. Talvez vocês todos saibam mesmo como é se arrumar por horas para ir a uma festa, e ao chegar ao lugar cumprimentem a todos com muita naturalidade. Depois de várias cervejas, é verdade que vocês investem em uma possível noitada com final feliz: às vezes conseguem, beijam ou até mesmo levam pra casa a outra pessoa que desejaram tanto por horas. Caso não o consigam, vocês tem a inteligente resolução de que o problema estava na outra pessoa, e que não haveria de ter nada a ver com vocês, e semana que vem há outra festa. 

Talvez vocês saibam exatamente como eu deva agir para conquistar o carinho e admiração de cada um, como devo fazer, passo a passo.
Eu acho que sei de tudo isso. Em tantos outros momentos, procurei satisfazer o desejo dos outros, e assim também pensava que me satisfazia, é verdade. Assim também abri brechas pra me destruir, deixei de me respeitar, acho mesmo que não fui feita pra esse mundo de vocês.

Eu ando à cavalo por algumas horas em meio às plantações, enquanto canto canções de musicais antigos. Vez ou outra, a égua estranha minha falta de prática e testa a coragem da cavaleira: pula por alguns assustadores segundos, ameaça me derrubar, até que para e me abandona com meus músculos trêmulos e tensos de tanta força, com meu susto que me impede de aplicar qualquer tipo de represália. Passo a pensar em alguma estratégia.
Passo horas colhendo amoras embaixo do sol, minhas mãos vão se tangendo de roxo, assim como minha boca, conforme vou me deliciando com aquelas frutinhas divinas. A cada vez que estendo meus braços e espreguiço meu corpo inteiro em direção às centenas de acerolas vermelhas do pé carregado no início do inverno, sinto como se fosse a primeira vez que executo esse movimento. 
É um sentimento virgem, sereno, que me envolve o corpo e o pensamento, puro e inexperiente como se eu sempre fizesse as vezes de uma iniciante. Nunca se repete, e sempre se amplifica.

Corro pelo pomar em busca de uma galinha fujona, armo um cerco em torno do limoeiro, imagino uma estratégia para uma arapuca que possa capturá-la. Passo horas regando cuidadosamente os mais de 47 pés de eucalipto, enquanto posso observar o céu ir descansar vagarosamente, como se ateasse fogo nas nuvens. Vou e volto do pomar, carregando por um longo caminho um regador de 12 kg a cada vez. Não me canso, e não me permito nenhuma vez sequer realizar a tarefa de forma mal feita: para cada pé que fica sem água, em poucos dias a secura do inverno pode levá-lo a um padecimento total. Como precisamos da chuva!

É verdade que vocês sabem muito, e que o fato de eu não saber fazer como vocês me assusta.
Talvez, no entanto, vocês não saibam como eu me sinto quando estou aqui, quando permito me entregar a esse momentos fecundos, ricos e maravilhosos, mesmo que de prazo determinado, uma vez que terei de abandoná-los. Talvez vocês não saibam como é voltar para casa no domingo à noite, depois do pôr-do-sol, com a tez e as bochechas queimadas do sol, os fios do cabelo um pouco mais dourados, a pele branca colorida em vários pontos com o marrom avermelhado da terra. Os pulmões respirando tranquilamente, os olhos ainda com resquícios tão frescos da paisagem inigualável, a língua ainda com gosto do peixe que assamos e comemos em meio a conversas calorosas, amigáveis, um carinho tão visível mesmo quando silencioso.

 Tento pensar tudo isso como algo meu, parte integrante real do que eu sou. Sinto uma pressão sufocante que me aprisiona, sei que terei que mostrar como eu sou, mesmo sem saber exatamente o que seria isso. Eu preferiria não ser, se existisse essa possibilidade. 

Eu sinto saudades tão grandes, uma angústia terrível que é preenchida pelo meu vazio, quase como num mecanismo de defesa. Não há uma noite em que eu não me perca nos meus medos e lembranças e  mais uma pequena veia do meu olho se rompe ao ceder em um choro que eu tentei muito controlar. Eu sinto raiva, quando no dia seguinte vejo no espelho meu olho avermelhado pela pequena hemorragia de horas antes. Eu não quero me machucar. Não quero me deixar levar por sentimentos que me deterioram e me deixam tão tentada a desistir, a sucumbir ao que já conheço tão bem e não desejo, mas com que não deixo de flertar em alguns momentos.

Quero ser capaz de levar comigo o que eu sinto que é meu.

**Me deixa gritar, me deixa te abraçar... Depois de tanto tempo me mantendo tão serena, tudo o que eu queria mesmo era perder um pouco do controle, me permitir de tantas formas, abraçar o Mundo com um amor que eu sei que existe, escondido atrás dessa aparente indiferença. Meu coração acelera, inquieto.***

Vem comigo
No caminho
Eu te explico.


Eu e meu pai no campo de ipês-amarelos. Em meio a plantação de cana, natureza seca plantada para o progresso, dezenas desses ipês despontam alegremente, teimosos, conscientes de sua beleza.