Nesse último sábado fui a uma festa junina de um colégio. A escola em que eu estudei por seis meses e em que o filho da namorada do meu pai vai se forma esse ano. Fui acompanhá-los e ver o B. (o guri), dançar a quadrilha dele.
Comi algumas coisas tradicionais dessa época do ano e fiquei andando meio sem rumo pelo lugar absurdamente abarrotado de crianças e adolescentes completamente envolvidos com a festa, em alvoroço total. Os pais corriam de lá pra cá tentando manter alguma ordem, ao mesmo tempo que tiravam inúmeras fotos de seus filhos queridos. Fu ficando sufocada com tudo aquilo mas não entendia o porquê. Todos pareciam tão felizes e realmente estavam, certamente era algo pelo qual esperaram o mês inteiro, para rir, tirar fotos, encontra aquela pessoa que eles tanto paqueram e ver se rola alguma coisa....enfim, tantas possibilidades.
Fui ao topo da arquibancada e fiquei lá sentada por quase uma hora, esperando que a quadrilha começasse logo pra que eu fosse embora à pé, não importava a distância. Não estava lá em cima à contragosto, era simplesmente onde conseguia observar e pensar com mais cuidado. Olhei todo aquele envolvimento, às vezes até mesmo angustiado, dos adolescentes, querendo de alguma forma um posicionamento, um lugar de prestígio, ou ao menos algo significativo, em todos os acontecimentos.
Me vieram flashes rápidos de memória sobre eu mesma na festa junina de 2004, nos curtos seis meses em que fiquei na escola. Me lembrei de que também naqueles dias tão antigos eu queria ir embora a qualquer custo, assim que eu fizesse o que foi a mim determinado.
Pensei por pouco tempo e me veio talvez uma resolução: me sentia sufocada por toda aquela alegria porque nunca a pude ter: me mudei de cidade, escola, amigos, assim como se muda de ano na colégio.
Não firmei raízes em lugar nenhum. Qualquer tipo de pequeno alicerce, quando começava a se formar, era implodido por uma nova mudança. Por contingências externas quando pequena, e por escolhas talvez influenciáveis demais, impulsivas demais, assim que as pude ter. Como se tivesse que seguir a inércia das mudanças, em um ciclo contínuo, para que tudo fizesse sentido. Troca de cartas, e-mails, telefonemas, promessas de "nunca vou te esquecer", nada disso resiste ao poder destruidor do tempo. "Le tèmps detroit tout", como no filme "Irreversível". Será tudo mesmo irreversível?
E o choro, as lágrimas de despedida, as lembranças para "que não me esqueça, Li", as perguntas inconvenientes depois sobre o porquê de tal e qual mudança.
"De onde você é. Li?" - "É uma longa história". Na realidade, não pertenço a lugar nenhum. E isso não é sinal de liberdade, coragem ou ousadia, mas precedentes de uma intesa sensação de ausência de afetos e solidão. A Livs é sempre aquela que aparece de vez em quando, talvez bem-vinda, mas....pq mesmo ela veio?o que está fazendo?onde está morando? Ninguém sabe ou haveria de saber. Não dá, tantos lugares, tantas pessoas, pequenas e grandes alegrias, mudanças à francesa sem que ninguém se dê conta e também aquelas que causam alarde nos sete cantos.
O que eu mais queria agora era estar para sempre colada a um chão de relva clara e perfumada, com meus pés envolvendo um bucado de terra, como raízes, minhas mãos apertando a grama com força sem querer soltar: "é daqui que eu sou, a partir de agora, é daqui que quero ser". Minhas pálpebras quentes amortecidas pelo calor do sol.
Uma construção sem alicerces não dura, logo seus moradores estarão em risco ou o prédio será evacuado para que seja implodido.
Uma pessoa sem raízes não sossega o coração, não tem história definida LÁ, com as pessoas de LÁ, mas uma mistura de "LÁS" que me confunde sempre: escrevo ou falo o nome de um lugar querendo dizer outro, e aí já não sei mais qual queria dizer primeiro.
Uma pessoa sem raízes não sossega o coração, o cérebro, o estômago ou qualquer outro órgão. Não há histórias definidas pra contar. Há flashes de lugares avulsos.
Essa pessoa que não tem raízes ou aonde recorrer tem uma bolsa cheia de ansiolíticos que sempre pode levar consigo onde estiver. Os órgãos então se acalmam e algo como uma mornidão pútrida escapa disso tudo,como resultado, talvez tão falso e confuso quanto suas memórias.